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domingo, 9 de agosto de 2015

O ÓDIO À POLÍCIA

Toda vez que abro alguma rede social me deparo com meia dúzia de "revolucionários" apoiando alguma causa que eles mal se deram o trabalho de analisar direito. Convenientemente esta causa quase sempre é a que todos os outros estão apoiando, porque na era da rede social, alienação vem a dar com pau.
Hoje, o que vi foi mais uma daquelas postagens generalizadas atribuindo corrupção à polícia como um todo, e tratando o criminoso como vítima da sociedade. Não me entenda errado: estudei criminologia com atenção suficiente para concluir que o nosso sistema penal é autofágico. Em outras palavras, o Estado se alimenta da merda que ele cria. Isto, todavia, não significa que a merda seja uma ilusão. Temos sim que investir na educação, ações afirmativas, sistema carcerário capaz de reinserção social, e numa cultura que não veja o criminoso como "o outro irrecuperável". No entanto, não podemos negar que, enquanto a coisa não melhora, já existe e vai continuar existindo homicídio, tráfico (de drogas, órgãos e até pessoas), estupro, roubo e por aí vai. Descobrir que o criminoso foi criado pelas circunstâncias não desfaz o mal que ele está fazendo aos indivíduos que o cercam.
Agora que cheguei onde eu queria chegaram, eis meu desabafo. Porque, saibam vocês ou não, o mal que é feito muitas vezes recai sobre os policiais. Quando isto acontece, ninguém se rebela: trata-se apenas de uma fatalidade envolvendo o policial, que estava fazendo o seu trabalho. De outro lado, contudo, se algo ocorre com um criminoso, os pseudo-politizados já começam a se debater. De repente a polícia (em abstrato, porque quase nunca as pessoas têm a sensibilidade de ao menos considerar que em todos os ramos temos competência e corrupção coexistindo) é um órgão alienado, que desrespeita os direitos humanos e que deveria ter agido com mais cautela. 
O que as pessoas falham em considerar é que o policial, que normalmente está lá cumprindo ordens, é um ser humano com medos, uma vida para preservar e família esperando em casa. Se algo acontecer a ele, não é só uma farda que está caindo por terra: É UMA PESSOA. E sim, as chances de algo acontecer aos policiais é bem grande, porque os ataques a estes profissionais (muito embora isto não seja noticiado devidamente) têm crescido drasticamente. Enquanto isso, a sociedade apedreja e solicita que as mãos dos policiais sejam ainda mais atadas que já estão.
Com este discurso não pretendo fazer vista grossa aos policiais que abusam da força e do poder, abrem fogo sem ter prova e se deixam corromper. Como eu já disse antes, existem bons e maus profissionais em todas as áreas.
Também não vou deixar passar em branco o fato de o criminoso, assim como o policial, ser ALGUÉM com direito a vida, família e novas chances.
Mas então o que fazer diante deste embate? APRENDER A CRITICAR E ATACAR O PROBLEMA CERTO. De nada adianta o povo se rebelar se não sabe ter foco e enxergar o que interessa!
A polícia segue ordens vindas de cima. Alguém com dinheiro e poder está sentado em sua confortável poltrona determinando que subordinados coloquem suas vidas em risco, bem como se sujeitem a receber represálias da sociedade maniqueísta (o policial é o mauzinho e o criminoso é o coitadinho, ou vice-versa). Este indivíduo que dá as ordens ao policial, por sua vez, atua dentro de um sistema que já é todo fodido, pois estruturado por pessoas que representam interesses fragmentados (vide a divisão do legislativo em bancadas, que se ocupam de ninharias e nunca atacam os problemas reais). Quem dá a ordem normalmente não é visto, atua por trás dos panos, e por isso não é repreendido pelo povo ou pela mídia. 
Sobra então para quem?  Para os policiais, que ganham mal, obedecem ordens, e são responsabilizados por um problema que é infinitamente mais profundo, e que nunca vai ser plenamente enxergado pelos cidadãos brasileiros: criaturas tapadas que só conseguem ver a ferida, mas nunca enxergam a causa dela

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Resumo do livro "Outsiders", de Howard S. Becker


Grupos sociais criam regras a respeito do que seja certo e errado, e tentam impô-las. As vezes estas regras são normas formais impostas pelo Estado; às vezes são tradições informalmente impostas pela sociedade. Quem desvia dessas regras é considerado um outsider.
Diferentes grupos têm diferentes conceitos de “desviante”. Para a concepção estatística, desvio é o que difere do comum. Para a analogia médica, a sociedade é um organismo com partes funcionais e partes disfuncionais. Na concepção sociológica, desvio é infração à regra geralmente aceita.
A questão é que existe normalmente uma situação ambígua, na qual o indivíduo, ao observar a regra de um grupo, está quebrando a regra de outro.
A categoria de desviantes não é homogênea, existindo pessoas rotuladas que nunca infringiram regras, e pessoas que infringiram regras e nunca foram rotuladas. O desvio não é uma qualidade do ato, mas uma consequência da reação dos outros. Depende da natureza do ato e da reação alheia. Se os outros não reagem/ficam sabendo, não é punição e rotulação. A reação também varia conforme o indivíduo em questão (se é branco, negro, rico ou pobre, tem tratamentos diferentes).
Os detentores de poder político e econômico são os criadores das regras.  Grupos cuja posição social lhe dá armas e poder são mais capazes de impor suas regras. Estas regras são impostas muitas vezes às pessoas que não pertencem àquele grupo e àquela lógica, e que não concordam com as normas.
TIPOS DE DESVIO

Comportamento apropriado
Comportamento infrator
Percebido como desviante
Falsamente acusado
Desviante puro
Não percebido como desviante
Apropriado
Desviante secreto

Modelo sequencial de desvio: é aquele que compreende que, para se chegar a uma conduta desviante, é necessário que se dê uma série de passos. Dentro deste modelo há a concepção de carreira.
Existem pessoas que tem comportamentos desviantes intencionalmente, e outras que estão tão submersas em sus subculturas que o fazem não-intencionalmente (não sabia que era inapropriado). A diferença entre o desviante e o não desviante não reside na motivação. A maioria das pessoas tem impulsos desviantes, porém algumas resistem e outras não. Aqueles que resistem pensam nas consequências, e em todo o esforço já empregado em ser “normal”. Os que não resistem não têm  compromissos convencionais (ter uma família, emprego estável, reputação) ou usam as técnicas de neutralização  de Sykes e Matza.
Muitas atividades desviantes vêm de motivos socialmente aprendidos. Ser pego praticando essas atividades tem a consequência da rotulação e da mudança da identidade pública, e a opinião alheia acaba moldando o rotulado. O tratamento dado ao desviante toma a opinião pública como certa, a sociedade exclui o desviante, e ele é empurrado à clandestinidade e prática de desvio maior.
A posse de um traço desviante faz as pessoas presumirem outras características associadas (presumir que o ladrão é negro, pobre, favelado, etc.). Há também status que se sobrepõem a outros, sendo o desvio um deles. Há casos em que o indivíduo deixa de praticar a conduta, mas ainda assim recebe o mesmo rótulo. O pertencimento a grupo de desviantes solidifica o rótulo. O grupo desviante racionaliza a conduta e justifica-la.
Os motivos desviantes não levam ao desvio; o desvio é que produz a motivação.
USUÁRIOS DE MACONHA
Aprender a técnica para produção de efeitos (observando o grupo) >> aprender a perceber os efeitos (e liga-los à conduta, diferenciando do estado normal) >> aprender a gostar dos efeitos (redefinir efeitos ambíguos como agradáveis, por meio de interação com mais experientes). Só após atravessar estas experiências o indivíduo pode desenvolver uma motivação. Desenvolvendo esta motivação, o indivíduo se defrontará com formas formais e informais de controle social, que dificultarão a prática daquela conduta (no caso do uso de maconha: limitação do fornecimento, sigilo imposto pelo medo da reprovação e punições, valores morais de outsiders contra os quais surgem justificativas e racionalizações).
MÚSICOS
As culturas e subculturas se caracterizam por serem formadas por pessoas que têm entendimentos e perspectivas em comum. As subculturas são aquelas que operam dentro de uma sociedade mais ampla. Na subcultura dos músicos, existem aqueles que buscam o sucesso convencional (se tornando comerciais) e os que se atêm aos seus padrões artísticos (mantendo o respeito dos demais músicos). Existe também o paradoxo entre tocar o que quer e se sustentar. É a necessidade do dinheiro que faz o músico ceder.
O músico vê a si e aos seus colegas como pessoas com um dom especial que as torna diferentes de não-músicos (quadrados) e que não estão sujeitas ao seu controle social. O quadrado é o intolerante e ignorante que tem condições de impor a sua vontade. A quadradice está em todos os aspectos do quadrado; o avanço e a excentricidade está em todos os aspectos do músico. O quadrado são todos aqueles que não são músicos e que sabem menos.
A hostilidade em relação aos quadrados, o horário diferenciado de trabalho e a linguagem diferenciada acabam levando à auto-segregação.
As panelinhas facilitam o acesso de músicos comerciais aos empregos, por meio das indicações mútuas e assunção da responsabilidade pela qualidade do músico indicado. A família é uma instituição que pressiona o músico ao comportamento convencional, ou faz com que ele seja comercial para prover.
Interesse pessoal, iniciativa e publicidade influenciam da imposição de regras. Nas cidades grandes há a chamada “reserva”, sentimento que as pessoas têm de que “isto não é problema delas”, ao menos que sejam afetadas. A imposição fica a cargo das autoridades. Podem ocorrer de as regras não serem impostas pois os grupos se beneficiam de ignorar as infrações. Se a conciliação entre os interesses do grupo falha, alguém toma a iniciativa de denunciar o desvio. Neste caso, o acesso aos canais de publicidade vai ser fator importante para o impacto da denúncia.
ESTÁGIOS DE IMPOSIÇÃO DE REGRAS
Primeiramente surgem os valores, que são genéricos demais para serem usados como guia de ação. Deles são deduzidos regras específicas. Mais de uma regra pode se adequar ao mesmo valor. Algumas regras não surgem visando atender ao valor, mas sim à necessidade técnica de regular instituições. Por fim as regras são aplicadas, de forma seletiva, ao caso concreto.
Os valores por trás da proibição das drogas são o auto-controle e combate ao prazer ilícito. Nos Estados Unidos, em nome desses valores a Agência americana de narcóticos criou um clima favorável por meio da imprensa, causando preocupação popular. Em reação a esta preocupação, causada pela própria agência, ela mesma cuidou de legislar a respeito da restrição da planta que origina a maconha. Vários setores de produção foram afetados e barganhas políticas levaram às concessões. Por fim foi imposta a lei sem oposição, dado que os usuários não estavam organizados para contra-atacar.
CRIADORES DE REGRAS
Os cruzados morais impõem sua moral aos outros. Muitos têm motivações humanitárias e desejam ajudar, embora as vezes não saibam se a pessoa ajudada concorda com os meios de ajuda. Também há a questão da busca de apoio de pessoas com conhecimento técnico, como psiquiatras e juristas, que ficam encarregados da elaboração das leis e podem influenciá-las conforme interesse próprio. Uma cruzada bem sucedida acaba com a criação de regras e mecanismos adequados de imposição, bem como o surgimento de outsiders. Com seu término, seu criador vai buscar outros problemas a enunciar. Uma cruzada mal sucedida acaba com pessoas ressentidas, que esquecem da causa e se ocupam com a manutenção da luta, ou que se tornam elas mesmas outsiders.
IMPOSITORES DE REGRAS
São os policiais, que não se preocupam com o conteúdo da regra, mas com a existência de uma que justifique seu emprego. As agências oscilam entre alegações de que o problema “está sendo enfrentado adequadamente”, e o problema “está crescendo, mas não por culpa da agência”. O impositor rotulará a pessoa de desviante se: sentir que precisa dar uma demonstração de trabalho para justificar sua posição; o infrator não mostrar o devido respeito ao impositor; se o intermediário não entrar em ação; e se o ato estiver na lista de prioridades do impositor, que não pode abranger todas as infrações ao mesmo tempo.
O problema da análise destes problemas é o distanciamento causado pela falta de artigos e estudos. Isso se dá porque os artigos e estudos requerem aproximação de grupos que, por serem outsiders, se escondem e não dão confiança. Ademais, para entender este grupo, é necessário adotar a lógica dele. Ao fim, a pesquisa será tachada de tendenciosa. Qualquer que seja o grupo escolhido para se estudar (os impositores ou os outsiders), não se pode enxergar as pessoas como vilãos e heróis. Deve-se entender a situação como algo valorado diferentemente por diferentes pessoas.
A TEORIA DA ROTULAÇÃO RECONSIDERADA
As pessoas agem de forma coletiva, observando o que os outros fazem. O desvio também se dá de forma coletiva, de modo que de nada serve analisar o estado psicológico de desvios isoladamente.  Também é importante estudar as condutas separando-as da valoração (“desvio”) atribuída a elas, afinal um ato será diferentemente valorado conforme o grupo que o analisa.
As pessoas que cometem desvios têm as mesmas motivações daqueles que praticam atos comuns. É importante observar ações e reações e tirar conclusões de forma empírica, ao invés de se basear em registros oficiais, que também resultam de ações coletivas.

A abordagem interacionista também questiona o monopólio da verdade que as pessoas de poder têm, sugere que procuremos a verdade nós mesmos, e faz com que questionemos definições (de conduta “desviante” ou conduta “normal”) dadas por estas autoridades. As autoridades atacam os cientistas adeptos desta abordagem, acusando-os de ignorar os valores morais e serem tendenciosos.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Resumo do livro "Criminologia Crítica", de Alessandro Baratta


TEORIAS DAS SUBCULTURAS CRIMINAIS E TEORIAS DAS TÉCNICAS DE NEUTRALIZAÇÃO: são formas que o delinquente encontra para racionalizar a conduta desviante, neutralizando a eficácia dos valores e normas sociais.
a)     Exclusão da responsabilidade – “fui levado pelas circunstâncias”;
b)    Negação de ilicitude – “é proibido, mas não imoral”, uso de nomes alternativos para atos;
c)     Negação de vitimização – “vítima merece o tratamento”;
d)    Condenação dos que condenam – pessoas são hipócritas, polícia é corrupta, etc;
e)     Apelo a instâncias superiores – irmãos, gangs, circulo de amigos, etc.
A teoria destes autores representa uma correção e integração da teoria das subculturas. A formação de uma subcultura é a mais difusa e eficaz técnica de neutralização. Para Sykes e Matza, é através da aprendizagem destas técnicas que o menor se torna delinquente, e não tanto mediante aprendizado de valores opostos aos da sociedade dominante. O comportamento delinquencial está baseado num sistema de valores e regras, derivados do contato com a sociedade conformista, e das exceções e justificações aprendidas nos contatos com subculturas e desviantes.
A teoria das subculturas liga criminalidade à distribuição de oportunidades e riquezas. Esta teoria não se coloca o problema das relações sociais e econômicas sobre as quais se fundam a lei e os mecanismos de criminalização e estigmatização, que definem sujeitos e condutas como “criminosos”. Também não se fala sobre o significado dos desvios e o porquê dos processos de criminalização na sociedade capitalista. É uma teoria de médio alcance: parte da análise de determinados setores sociais, permanecendo dentro dos limites destes setores, ao invés de questioná-los.
LABELING APPROACH
A distinção entre comportamento criminoso e lícito depende mais da definição legal do que do caráter bom ou mau de uma atitude. O problema da definição do delito é o centro das teorias da reação social ou labeling approach.  Estas teorias procuram entender o sistema penal, começando pelas normas abstratas e chegando até a ação das instâncias oficiais de controle. Se essas instâncias não agem de modo a alcançar aquele comportamento punível, a pessoa não é tachada de delinquente e não é estigmatizada.  Ao contrário das demais teorias, a LA questiona os objetos “criminoso” e “criminalidade” ao invés de toma-los como certos e tê-los como ponto de partida.
>>Orientação sociológica do LA: de acordo com o internacionalismo simbólico, a realidade social é constituída por interações concretas entre indivíduos; a estas interações é conferido um significado através do processo de tipificação. Esta tipificação é parte do processo de construção social, que forma a realidade social.
A ação é o comportamento ao qual se atribui um sentido ou um significado social, dentro da interação. Existem normas sociais gerais (normas éticas e jurídicas) e normas interpretativas, As segundas determinam a interpretação e aplicação das primeiras, e estão na base das interações sociais.
Labeling approach seguem duas direções: questiona o efeito do que o etiquetamento tem sobre os “rotulados” como criminosos; questiona a definição do que seja conduta desviada, bem como a distribuição do poder de definição.
>>Efeitos da estigmatização: Lemert afirma que a punição leva a uma mudança de identidade do indivíduo estigmatizado, levando-o a permanecer naquele ‘papel’. Assim, o desvio primário se dá pelo contexto social, cultural e psicológico; já o desvio secundário se dá pelos efeitos psicológicos à punição causada pelo desvio primário. Assim, a intervenção do sistema penal consolidam a personalidade desviante mais do que reeducam o delinquente.
Paradigma do controle: a) quais condições da atribuição de significados do desvio (dimensão da definição); 2) qual o poder que confere validade a certas definições (dimensão do poder);
A definição de conduta desviada é feita não só pelas agências, mas também pelo senso comum. Para Kitsuse o desvio é um processo durante o qual alguns indivíduos: a) interpretam um comportamento como desviante; b) definem uma pessoa, cujo comportamento corresponda a esta interpretação, como fazendo parte de uma categoria de desviantes; c) põem em ação um tratamento apropriado para esta pessoa. É a interpretação do comportamento que decide se ele é ou não desviante. Por isso, na teoria do LA, as interrogações deixam de se voltar à criminalidade e passam a se voltar à criminalização.
O que é a criminalidade: isso se apreende pela observação da reação social (que deve ser desencadeada) frente a um ato. O ato criminoso distingue do que se tem por “normal”, perturba a percepção e causa sentimento de indignação, embaraço, culpa, etc. Também não entram nas exceções da convencionalidade (dava pra fazer outra coisa?) e teoricidade (o autor tinha consciência do que fazia?)
O processo de definição é um processo de tipificação. Só sobre a base daquela realidade já pré-constituída e tomada por dada é possível “reconhecer” uma situação e atribuir-lhe um significado desviante.  Isto se produz segundo um processo de negociação, no qual se parte de definições preliminares e convenções provisórias, e se realizam redefinições até chegar numa definição definitiva. As definições informais (senso comum) preparam as formais (agências). Teorias do labeling approach reduzem a criminalidade à definição legal e ao efetivo etiquetamento.
A sociologia criminal do ultimo decênio tem dois novos campos de investigação: a) criminalidade de colarinho branco; b) cifra negra. A) A criminalidade de colarinho branco é pouco perseguida, ou consegue escapar pelas brechas da lei. Isso se dá por fatores de natureza social (prestígio, fraca estigmatização, ausência de estereótipos, etc.), jurídico formal (competência das CPIs) ou econômica (ter dinheiro para pagar melhor advogado e exercer pressão em quem decide, p.ex.). B) as estatísticas criminais, nas quais a criminalidade de colarinho branco é mal representada (grande cifra negra), sugerem um falso quadro da distribuição da criminalidade nos grupos sociais. Isto influencia na formação de estereótipos da criminalidade, na ação de órgãos oficiais (aplicação seletiva) e na definição de criminalidade pelo senso comum. As pesquisas sobre cifra negra levam à conclusão de que a criminalidade  é comportamento presente em todos estratos sociais.
No direito existem as regras gerais e as “meta-regras” (como interpretar e aplicar as primeiras). Estas meta-regras estão ligadas a leis, mecanismos e estruturas objetivas da sociedade.
SELEÇÃO DA POPULAÇÃO CRIMINOSA
Por trás da seleção da população criminosa estão os mesmos mecanismos de interação, antagonismo e poder que dão conta da desigual distribuição de bens e oportunidades entre indivíduos. A ideia de que “crime é comportamento que viola uma norma penal” é mera ficção, pois se interpretado literalmente, a maioria das pessoas seriam tidas como criminosas. Sack acredita que a criminalidade é uma qualidade atribuída pelos juízes, que produzem a qualidade criminal da pessoa com as consequências jurídicas e sociais.  A criminalidade é um bem negativo, e o comportamento desviante é o que os outros definem como desviante.
A função seletiva do sistema penal em face dos interesses específicos dos grupos sociais, a função de sustentação que tal sistema exerce em face dos outros mecanismos de repressão e de marginalização dos grupos sociais subalternos, em benefício dos grupos dominantes, parece, portanto, colocar-se como motivo central para uma crítica da ideologia penal.
O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO DA CRIMINALIDADE
1)    Problema metalinguístico: por causa da validade das definições de crime, criminoso e criminalidade (atribuição da qualidade “criminoso”);
2)    Problema teórico: referente ao poder de estabelecer quais pessoas e crimes devem ser perseguidos;
3)    Problema fenomenológico: efeitos do etiquetamento sobre a pessoa.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

A impressão que eu tenho é a de que a maioria das pessoas não está, de fato, preocupada com a redução da criminalidade. A redução da criminalidade se alcança aplicando medidas que trazem oportunidades aos jovens.
O que vejo quase sempre é uma série de discursos inflamados, passionais, normalmente de alguém se coloca no lugar de um familiar ferido que acaba de perder alguém, ser abusado ou algo do tipo. Não vejo nada de mal em ter empatia por quem sofre, muito pelo contrário. Creio que a falta de empatia é um dos grandes problemas existentes na pós-modernidade, e está por trás de muitos atos de intolerância e preconceito.
Contudo, não podemos nos deixar cegar pelo sentimento de indignação que nos toma quando somos noticiados acerca de crimes cometidos por jovens. Por mais que nosso reflexo seja querer punir, temos que diferenciar justiça de vingança. Mais ainda, temos que sopesar os efeitos:
  1. Por um lado, vinga-se a família da vítima, joga-se o jovem (que muitas vezes cresceu pobre e sem oportunidades) em meio a adultos que estão há tempos no mundo do crime, e acaba-se com quaisquer chances de ressocialização. Quando o apenado finalmente deixa o sistema penitenciário (que, por sinal, não tem capacidade para suportar o aumento da população carcerária que a redução da maioridade causaria), o faz após ser influenciado e estigmatizado. As chances de reincidência crescem.
  2. Por outro lado, aplica-se ao jovem uma sanção diferenciada, busca-se ressocializá-lo (o que já é tarefa difícil na situação atual) e, em longo prazo, talvez sejamos beneficiados por jovens não reincidentes.
Eu sei que este discurso parece frio, e que nossa reação é a de querer que o infrator pague pelo que fez. Contudo, não podemos nos eximir de pensar nos efeitos a longo-prazo que as políticas têm na sociedade, em especial quando estamos falando de políticas de controle do crime.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Recortes do livro "Modernidade Líquida", de Zygmunt Bauman #6

Comunidade

O comunitarismo é uma reação esperável à acelerada "liquefação" da vida moderna. O comunitarismo renascido responde à questão genuína e pungente de que o pêndulo oscila radicalmente - e talvez para longe demais - afastando-se do pólo da segurança na díade dos valores humanos fundamentais. O principal apelo do comunitarismo é a promessa de um porto seguro, o destino dos sonhos dos marinheiros perdidos no mar turbulento da mudança constante, confusa e imprevisível. Os que estavam presos dentro de uma casa comum de alvenaria podiam, vez ou outra, ser assaltados pela estranha impressão de estar numa prisão e não num porto seguro; a liberdade da rua acenava de fora, tão inacessível quanto a sonhada segurança do lar tende a ser hoje.  A comunidade ideal é um compleat mappa mundi: um mundo total, que oferece tudo de que se pode precisar para levar uma vida significativa e compensadora. O mundo comunitário está completo porque todo o resto é irrelevante; mais exatamente, hostil - um ermo repleto de emboscadas e conspirações e fervilhante de inimigos que brandem o caos como sua arma principal.

O "nós" do credo patriótico/nacionalista significa pessoas como nós-, "eles" significa pessoas que são diferentes de nós. As fronteiras não reconhecem e registram um estranhamento já existente; elas são traçadas, como regra, antes que o estranhamento seja produzido. Primeiro há um conflito, uma tentativa desesperada de separar "nós" e "eles"; então os traços cuidadosamente espiados "neles" são tomados como prova e fonte de uma estranheza que não admite conciliação. Sendo os seres humanos como são, criaturas multifacetadas com muitos atributos, não é difícil encontrar tais traços quando a busca é feita a sério.

Podemos dizer que em rigorosa oposição tanto à fé patriótica quanto à nacionalista, o tipo mais promissor de unidade é a que é alcançada, e realcançada a cada dia, pelo confronto, debate, negociação e compromisso entre valores, preferências e caminhos escolhidos para a vida e a auto- identificação de muitos e diferentes membros da polis, mas sempre autodeterminados. Uma unidade erguida pela negociação e reconciliação, e não pela negação, sufocação ou supressão das diferenças. O "nós' como insiste Richard Sennett, "é hoje um ato de autoproteção. O desejo de comunidade é defensivo ... Certamente é quase urna lei universal que o "nós" pode ser usado como defesa contra a confusão e o deslocamento" Mas - e este é um "mas" crucial - quando o desejo de comunidade "se expressa como rejeição dos imigrantes e outros estranhos", é porque a política atual baseada no desejo de refúgio tem por alvo os fracos, que viajam nos circuitos do mercado global de trabalho, e não os fortes, as instituições que mobilizam os trabalhadores pobres ou fazem uso de sua privação relativa. A imagem da comunidade é purificada de tudo o que pode trazer uma sensação de diferença, que dirá conflito, a quem somos "nós”. Desse modo, o mito da solidariedade comunitária é um ritual de purificação ... O que distingue esse compartilhamento mítico nas comunidades é que as pessoas sentem que pertencem umas às outras, e ficam juntas, porque são as mesmas ... O sentimento de "nós' que expressa o desejo de semelhança, é um modo de evitar olhar mais profundamente nos olhos dos outros.

O potencial de liberação nunca foi a questão dos comunitários; os problemas que se esperava que as futuras comunidades sanassem eram sedimentos dos excessos de liberação, de um potencial de liberação grande demais para ser confortável.

Parece haver pouca esperança de resgatar os serviços de certeza, segurança e garantias do Estado. A liberdade da política do Estado é incansavelmente erodida pelos novos poderes globais providos das terríveis armas da extraterritorialidade. Se a demonstração diária e rotineira da superioridade das forças globais não for suficiente para forçar o Estado a ver a razão e cooperar com a nova "ordem mundial' a força militar é exercida: a superioridade da velocidade sobre a lentidão, da capacidade de escapar sobre a necessidade de engajar-se no combate, da extraterritorialidade sobre a localidade, tudo isso se manifesta espetacularmente com a ajuda, desta vez, de forças armadas especializadas em táticas de atacar e correr e a estrita separação entre "vidas a serem salvas" e vidas que não merecem socorro.

Para as multinacionais (isto é, empresas globais com interesses e compromissos locais dispersos e cambiantes), "o mundo ideal" "é um mundo sem Estados, ou pelo menos com pequenos e não grandes Estados' observou Eric Hobsbawm. "A menos que tenha petróleo, quanto menor o Estado, mais fraco ele é, e menos dinheiro é necessário para se comprar um governo". A clara incapacidade dos governos de equilibrar as contas com os recursos que controlam (isto é, os recursos que eles podem estar certos de que continuarão no domínio de sua jurisdição independente do modo que escolham para equilibrar as contas) seria suficiente para fazê-los não só se renderem ao inevitável, mas colaborarem ativamente e de bom grado com os "globais”.


A maioria das comunidades explosivas contemporâneas são feitas sob medida para os tempos líquidos modernos mesmo que sua disseminação possa ser projetada territorialmente; precisam de um espetáculo que apele a Interesses semelhantes em indivíduos diferentes e que os reúna durante um certo tempo em que outros interesses - que os separam em vez de uni-los - são temporariamente postos de lado, deixados em fogo brando ou inteiramente silenciados. Os espetáculos passaram a substituir a "causa comum" da era da modernidade sólida, do hardware - o que faz diferença para a natureza das identidades ao novo estilo e leva a dar sentido às tensões emocionais e traumas geradores de agressividade que de tempos em tempos as acompanham. A cada dia, as manchetes de primeira página da imprensa e dos cinco primeiros minutos da TV acenam com novas bandeiras sob as quais reunir-se e marchar ombro (virtual) a ombro (virtual). Oferecem um "objetivo comum" (virtual) em torno do qual comunidades virtuais podem se entrelaçar, alternadamente atraídas e repelidas pelas sensações sincronizadas de pânico (às vezes moral, mas geralmente imoral ou amoral) e êxtase.

domingo, 19 de outubro de 2014

Recortes do livro "Modernidade Líquida", de Zygmunt Bauman #5


Trabalho

O "progresso" não representa qualquer qualidade da história, mas a auto confiança do presente.  Quanto menor é a firmeza no presente, tanto menos o "futuro" pode ser integrado no projeto. Lapsos de tempo rotulados de "futuro" encurtam, e a duração da vida como um todo é fatiada em episódios considerados "um de cada vez”. A continuidade não é mais marca de aperfeiçoamento.

A nossa experiência é semelhante à dos passageiros que descobrem, bem alto no céu, que a cabine do piloto está vazia. O centro de controle tornou-se oculto: nunca mais será ocupado por um líder conhecido ou por uma ideologia clara.

Quaisquer que tenham sido as virtudes que fizeram o trabalho ser elevado ao posto de principal valor dos tempos modernos, sua maravilhosa, quase mágica, capacidade de dar forma ao informe e duração ao transitório certamente está entre elas. O "trabalho" assim definido era um esforço coletivo de que cada membro da espécie humana tinha que participar. Atualmente, atos de trabalho se parecem mais com as estratégias de um jogador que se põe modestos objetivos de curto prazo, não antecipando mais que um ou dois movimentos. A pessoa é medida e avaliada por sua capacidade de entreter e alegrar, satisfazendo não tanto a vocação ética do produtor e criador quanto as necessidades e desejos estéticos do consumidor, que procura sensações e coleciona experiências.

A separação das atividades produtivas do resto dos objetivos da vida permitiu que o "esforço físico e mental" se condensasse num fenômeno em si mesmo - uma "coisa" a ser tratada como todas as coisas, isto é, a ser "manipulada' movida, reunida a outras "coisas" ou feita em pedaços.

A incerteza do presente é uma poderosa força individualizadora. Ela divide em vez de unir, e como não há maneira de dizer quem acordará no próximo dia em qual divisão, a ideia de "interesse comum" fica cada vez mais nebulosa e perde todo valor prático. O capital se tornou exterritorial, leve, desembaraçado e solto numa medida sem precedentes, e seu nível de mobilidade espacial é na maioria dos casos suficiente para chantagear as agências políticas dependentes de território e fazê-las se submeterem a suas demandas. A ameaça (mesmo quando não expressa e meramente adivinhada) de cortar os laços locais e mudar-se para outro lugar é uma coisa que qualquer governo responsável, em beneficio próprio e no de seus concidadãos, deve tratar com a maior seriedade, tentando subordinar suas políticas ao propósito supremo de evitar a ameaça do desinvestimento. Paradoxalmente, os governos podem ter a esperança de manter o capital em seu lugar apenas se o convencerem de que ele está livre para ir embora - com ou sem aviso prévio.

Acesso à "informação" (em sua maioria eletrônica) se tornou o direito humano mais zelosamente defendido e o aumento do bem-estar da população como um todo é hoje medido, entre outras coisas, pelo número de domicílios equipados com (invadidos por?) aparelhos de televisão.

A procrastinação como prática cultural surgiu com a modernidade. A procrastinação deriva seu sentido moderno do tempo vivido como uma peregrinação, como um movimento que se aproxima de um objetivo. A procrastinação tende a tornar-se seu próprio objetivo. A coisa mais importante deixada de lado no ato da procrastinação tende a ser o fim da própria procrastinação. O adiamento da satisfação mantém o produtor a serviço do consumidor - mantendo o consumidor que vive no produtor plenamente acordado e de olhos bem abertos.  Contudo, muito mais efêmero e frágil que o trabalho, e, ao contrário do trabalho, não reforçado por rotinas institucionalizadas, o desejo não tem chance de sobreviver se a satisfação for deixada para as calendas gregas. Para se manter vivo e fresco, o desejo deve ser, algumas vezes, e frequentemente, satisfeito ainda que a satisfação signifique o fim do desejo.

A cultura em guerra com a procrastinação é uma novidade na história moderna. Ela não tem lugar para tomar distância, nem para reflexão, continuidade, tradição.

Precariedade, instabilidade, vulnerabilidade, é a característica mais difundida das condições de vida contemporâneas. O desemprego nos países prósperos tornou-se "estrutural".  E o progresso tecnológico - de fato, o próprio esforço de racionalização - tende a anunciar cada vez menos, e não mais, empregos. Na falta de segurança de longo prazo, a "satisfação instantânea" parece uma estratégia razoável. As modas vêm e vão com velocidade estonteante, todos os objetos de desejo se tornam obsoletos, repugnantes e de mau-gosto antes que tenhamos tempo de aproveitá-los. Condições econômicas e sociais precárias treinam homens e mulheres  a perceber o mundo como um contêiner cheio de objetos descartáveis, objetos para uma utilização; o mundo inteiro - inclusive outros seres humanos. Mesmo um pequeno problema pode causar a ruptura de parceria; desacordos triviais se tornam conflitos amargos, pequenos atritos são tomados como sinais de incompatibilidade essencial e irreparável.


Pierre Bourdieu mostra a ligação entre o colapso da confiança e o enfraquecimento da vontade de engajamento politico e ação coletiva: a capacidade de fazer projeções para o futuro, sugere, é a conditio sine qua non de todo pensamento "transformador" e de todo esforço de reexaminar e reformar o estado presente das coisas - mas projeções sobre o futuro raramente ocorrerão a pessoas que não têm o pé firme no presente.

sábado, 18 de outubro de 2014

Recortes do livro "Modernidade Líquida", de Zygmunt Bauman #4


Tempo/espaço

Nunca e em nenhum lugar faltaram pessoas prontas a encontrar uma lógica para sua infelicidade, frustrações e derrotas humilhantes atribuindo a culpa a intenções malévolas e mal-intencionados planos alheios. O que é novo é que são os assaltantes (juntamente com os vagabundos e outros desocupados, personagens estranhos ao lugar em que se movem) que levam agora a culpa, representando o diabo. Nos anos 60 e 70, os eleitores e as elites - uma ampla classe média nos Estados Unidos - poderiam ter enfrentado a escolha de apoiar a política governamental para eliminar a pobreza, administrar a competição étnica e integrar a todos em instituições públicas comuns. Escolheram, em vez disso, comprar proteção, estimulando o crescimento da indústria da segurança privada. A comunidade definida por suas fronteiras vigiadas de perto e não mais por seu conteúdo; a "defesa da comunidade" traduzida como o emprego de guardiões armados para controlar a entrada; assaltante e vagabundo promovidos à posição de inimigo número um; compartimentação das áreas públicas em enclaves "defensáveis" com acesso seletivo; separação no lugar da vida em comum - essas são as principais dimensões da evolução corrente da vida urbana.

O que significa, então, dizer que o meio urbano é "civil" e, assim, propício à prática individual da civilidade? Significa, antes e acima de tudo, a disponibilidade de espaços que as pessoas possam compartilhar como personae públicas - sem serem instigadas, pressionadas ou induzidas a tirar as máscaras e "deixar-se ir' "expressar-se' confessar seus sentimentos íntimos e exibir seus pensamentos, sonhos e angústias. A principal característica da civilidade é a capacidade de interagir com estranhos sem utilizar essa estranheza contra eles e sem pressioná-los a abandoná-la ou a renunciar a alguns dos traços que os fazem estranhos. A principal característica dos lugares "públicos mas não civis"  é a dispensabilidade dessa interação.

"Os consumidores frequentemente compartilham espaços físicos de consumo, como salas de concertos ou exibições, pontos turísticos, áreas de esportes, shopping centers e cafés, sem ter qualquer interação social real':6 Esses lugares encorajam a ação e não a interação. Compartilhar o espaço físico com outros atores que realizam atividade similar dá importância à ação, carimba-a com a aprovação do número.” Os lugares de compra/consumo oferecem o que nenhuma "realidade real" externa pode dar: o equilíbrio quase perfeito entre liberdade e segurança.
Podemos dizer que "comunidade" é uma versão compacta de estar junto, e de um tipo de estar junto que quase nunca ocorre na "vida real": um estar junto de pura semelhança, do tipo "nós que somos todos o mesmo"; um estar junto que por essa razão é não-problemático e não exige esforço ou vigilância, e está na verdade pré-determinado; um estar junto que não é uma tarefa, mas "o dado" e dado muito antes que o esforço de fazê-lo.

Como lidar com a alteridade, por Claude Lévi-Strauss: a primeira estratégia visava ao exílio ou aniquilação dos "outros' a segunda visava à suspensão ou aniquilação de sua alteridade.

Como indica Richard Sennett, invocam-se mais a lei e a ordem quando as comunidades estão mais isoladas das outras pessoas na cidade Durante as últimas duas décadas as cidades nos EUA cresceram de maneira que homogeneizou as áreas étnicas; não é por acaso, então, que o medo do estranho também cresceu à medida que essas comunidades étnicas foram isoladas. “Manter a comunidade torna-se um fim em si mesmo; o expurgo dos que não fazem parte torna-se assunto da comunidade.” A capacidade de conviver com a diferença, sem falar na capacidade de gostar dessa vida e beneficiar-se dela, não é fácil de adquirir e não se faz sozinha. Essa capacidade é uma arte que, como toda arte, requer estudo e exercício. Não surpreende, pois, que a etnicidade, mais que qualquer outra espécie de identidade postulada, seja a primeira escolha quando se trata de fugir do assustador espaço polifônico onde "ninguém sabe falar com ninguém" para o "nicho seguro" onde "todos são parecidos com todos" - e onde, assim, há pouco sobre o que falar e a fala é fácil. 

O que quer que aconteça nesses "não-lugares", todos devem sentir-se como se estivessem em casa, mas ninguém deve se comportar como se verdadeiramente em casa. Um não-lugar "é um espaço destituído das expressões simbólicas de identidade, relações e história: exemplos incluem aeroportos, autoestradas, anônimos quartos de hotel, transporte público Jamais na história do mundo os não-lugares ocuparam tanto espaço"

Os espaços vazios são antes de mais nada vazios de significado. Vazios são os lugares em que não se entra e onde se sentiria perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos.  A cidade, como outras cidades, tem muitos habitantes, cada um com um mapa da cidade em sua cabeça. Cada mapa tem seus espaços vazios, ainda que em mapas diferentes eles se localizem  em lugares diferentes.
Algo deve ter acontecido à amplitude e à capacidade de carga da prática humana para que os soberanos espaço e tempo repentinamente se ponham a encarar, olhos nos olhos, os filósofos. Esse "algo" foi, podemos adivinhar, a construção de veículos que podiam se mover mais rápido que as pernas dos humanos ou dos animais; e veículos que, em clara oposição aos humanos e aos cavalos, podem ser tornados mais e mais velozes, de tal modo que atravessar distâncias cada vez maiores tomará cada vez menos tempo.

O tempo é diferente do espaço porque, ao contrário deste, pode ser mudado e manipulado; tornou-se um fator de disrupção: o parceiro dinâmico no casamento tempo-espaço. A modernidade nasceu sob as estrelas da aceleração e da conquista de terras. Essa foi a era do hardware, a época das máquinas pesadas e cada vez mais desajeitadas, dos muros de fábricas cada vez mais longos guardando fábricas cada vez maiores que ingerem equipes cada vez maiores, das poderosas locomotivas e dos gigantescos transatlânticos. Riqueza e poder que dependem do tamanho e qualidade do hardware tendem a ser lentas, resistentes e complicadas de mover.

Tudo isso mudou, no entanto, com o advento do capitalismo de software e da modernidade "leve”. A mudança em questão é a nova irrelevância do espaço, disfarçada de aniquilação do tempo. No universo de software da viagem à velocidade da luz, o espaço pode ser atravessado, literalmente, em "tempo nenhum”. O espaço não impõe mais limites à ação e seus efeitos, e conta pouco, ou nem conta. São os obstáculos que precisam ser superados no caminho que leva à sua apropriação, "a tensão da luta por elas'; que as fazem valiosas. O tempo não é mais o "desvio na busca'; e assim não mais confere valor ao espaço. Quem manda são as pessoas que conseguem manter suas  ações livres, sem normas e portanto imprevisíveis, ao mesmo tempo em que regulam normativamente as ações dos protagonistas. Pessoas com as mãos livres mandam em pessoas com as mãos atadas. O capital se livrou do peso e dos custos exorbitantes de mantê-lo. A arte da administração na era do capitalismo leve consiste em manter afastada a "mão-de-obra humana" ou, melhor ainda, forçá-la a sair. Encontros breves substituem engajamentos duradouros. A competição pela sobrevivência certamente é o destino dos trabalhadores - e de todos os que estão do lado que sofre a mudança da relação entre tempo e espaço.


O ilimitado das sensações possíveis ocupa o lugar que era ocupado nos sonhos pela duração infinita.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Recortes do livro "Modernidade Líquida", de Zygmunt Bauman #3

Individualidade


O mundo ordeiro do discurso de Joshua é um mundo rigidamente controlado. Tudo nesse mundo serve a algum propósito, mesmo que não seja claro (por enquanto, para alguns, mas para sempre, para a maioria) qual é esse propósito. Esse mundo não tem espaço para o que não tiver uso ou propósito. O não-uso, além disso, seria reconhecido nesse mundo como propósito legítimo. Para ser reconhecido, deve servir à manutenção e perpetuação do todo ordenado.

O capitalismo pesado, no estilo fordista, era o mundo dos que ditavam as leis, dos projetistas de rotinas e dos supervisores; o de homens e mulheres dirigidos por outros, buscando fins determinados por outros, do modo determinado por outros. Weber previu o triunfo iminente da "racionalidade instrumental": com o destino da história humana dado como sabido, e a questão dos fins da ação humana acertada e não mais aberta à contestação, as pessoas passariam a se ocupar mais, talvez exclusivamente, da questão dos meios - o futuro seria, por assim dizer, obcecado com os meios. No capitalismo leve temos  o que está em pauta é a questão de considerar e decidir, em face de todos os riscos conhecidos ou meramente adivinhados, quais dos muitos flutuantes e sedutores fins "ao alcance" (isto é, que podem ser razoavelmente perseguidos) devem ter prioridade - dada a quantidade de meios disponíveis e levando em consideração as ínfimas chances de sua utilidade duradoura.  Nesse mundo, poucas coisas são predeterminadas, e menos ainda irrevogáveis. As autoridades não mais ordenam; elas se tornam agradáveis a quem escolhe; tentam e seduzem. A autoridade amplia o número de seguidores, mas, no mundo de fins incertos e cronicamente subdeterminados, é o número de seguidores que faz - que é- a autoridade. Poucas derrotas são definitivas, pouquíssimos contratempos, irreversíveis; mas nenhuma vitória é tampouco final. A consciência de que o jogo continua, de que muito vai ainda acontecer, e o inventário das maravilhas que a vida pode oferecer são muito agradáveis e satisfatórios.

No mundo atual não temos líderes, mas sim conselheiros. Ao fim da sessão de aconselhamento, as pessoas aconselhadas estão tão sós quanto antes. Qualquer que fosse o conteúdo do aconselhamento, este se referia a coisas que a pessoa aconselhada deveria fazer por si mesma, aceitando inteira responsabilidade por fazê-las de maneira apropriada, e não culpando a ninguém pelas conseqüências desagradáveis que só poderiam ser atribuídas a seu próprio erro ou negligência.  Olhando para a experiência de outras pessoas, tendo uma ideia de suas dificuldades e atribulações, esperamos descobrir e localizar os problemas que causaram nossa própria infelicidade, dar-lhes um nome e, portanto, saber para onde olhar para encontrar meios de resistir a eles ou resolvê-los.

Procurar exemplos, conselho e orientação é um vício: quanto mais se procura, mais se precisa e mais se sofre quando privado de novas doses da droga procurada.
O código em que nossa "política de vida" está escrito deriva da pragmática do comprar. "Vamos às compras" pelas habilidades necessárias a nosso sustento e pelos meios de convencer nossos possíveis empregadores de que as temos; pelo tipo de imagem que gostaríamos de vestir e por modos de fazer com que os outros acreditem que somos o que vestimos; por maneiras de fazer novos amigos que queremos e de nos desfazer dos que não mais queremos; pelos modos de atrair atenção e de nos escondermos do escrutínio; pelos meios de extrair mais satisfação do amor e pelos meios de evitar nossa "dependência" do parceiro amado ou amante; pelos modos de obter o amor do amado e o modo menos custoso de acabar com uma união quando o amor desapareceu e a relação deixou de agradar; pelo melhor meio de poupar dinheiro para um futuro incerto e o modo mais conveniente de gastar dinheiro antes de ganhá-lo; pelos recursos para fazer mais rápido o que temos que fazer e por coisas para fazer a fim de encher o tempo então disponível; pelas comidas mais deliciosas e pela dieta mais eficaz para eliminar as conseqüências de comê-las; pelos mais poderosos sistemas de som e as melhores pílulas contra a dor de cabeça. A história do consumismo é a história da quebra e descarte de sucessivos obstáculos "sólidos" que limitam o vôo livre da fantasia e reduzem o "princípio do prazer" ao tamanho ditado pelo "princípio da realidade'. Alfred Sloan era um pioneiro do que mais tarde se tornaria uma tendência universal. A produção de mercadorias como um todo substitui hoje "o mundo dos objetos duráveis" pelos "produtos perecíveis projetados para a obsolescência imediata"
Numa sociedade sinóptica de viciados em comprar/assistir, os pobres não podem desviar os olhos; não há mais para onde olhar. Quanto maior a liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistível se torna o desejo de experimentar, ainda que por um momento fugaz, o êxtase da escolha. Quanto mais escolha parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportável para todos.

O status de todas as normas, inclusive a norma da saúde, foi severamente abalado e se tornou frágil, numa sociedade de infinitas e indefinidas possibilidades. O que ontem era considerado normal e, portanto, satisfatório, pode hoje ser considerado preocupante, ou mesmo patológico, requerendo um remédio. Primeiro, estados do corpo sempre renovados tomam-se razões legítimas para intervenção médica - e as terapias disponíveis também não ficam estáticas.

Quando falamos de identidade há, no fundo de nossas mentes, uma tênue imagem de harmonia, lógica, consistência: todas as coisas que parecem - para nosso desespero eterno - faltar tanto e tão abominavelmente ao fluxo de nossa experiência. A busca da identidade é a busca incessante de deter ou tornar mais lento o fluxo, de solidificar o fluido, de dar forma ao disforme.  As identidades parecem fixas e sólidas apenas quando vistas de relance, de fora. A "idade da ironia" foi substituída pela "idade do glamour”, em que a aparência é consagrada como única realidade A modernidade, assim, muda de um período do eu "autêntico" para um período do eu "irônico" e para uma cultura contemporânea do que poderia ser chamado de eu "associativo" - um "afrouxamento" contínuo dos laços entre a alma "interior" e a forma "exterior" da relação social. As identidades são assim oscilações contínuas.


Mudar de identidade pode ser uma questão privada, mas sempre inclui a ruptura de certos vínculos e o cancelamento de certas obrigações; os que estão do lado que sofre quase nunca são consultados, e menos ainda têm chance de exercitar sua liberdade de escolha.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Recortes do livro "Modernidade Líquida", de Zygmunt Bauman #2

Emancipação


Uma dessas questões é a possibilidade de que o que se sente como liberdade não seja de fato liberdade; que as pessoas poderem estar satisfeitas com o que lhes cabe mesmo que o que lhes cabe esteja longe de ser "objetivamente"  satisfatório. O corolário dessa possibilidade é a suposição de que as pessoas podem ser juízes incompetentes de sua própria situação.

Outros discursos freqüentes para protestos semelhantes foram os do "aburguesamento" dos despossuídos (a substituição de "ser" por "ter" e a de "agir" por "ser" como  os valores mais altos) e da "cultura de massas" (uma lesão cerebral coletiva causada pela "indústria cultural' plantando uma sede de entretenimento e diversão no lugar que - como diria Mathew Arnold - deveria ser ocupado pela "paixão pela doçura e pela luz e pela paixão de fazer com que estas triunfem").

Para hobbes, a falta de limites eficazes faz a vida "detestável, brutal e curta" - e, assim, qualquer coisa, menos feliz.  A coerção social é, nessa filosofia, a força emancipadora, e a única esperança de liberdade a que um humano pode razoavelmente aspirar. O resultado da rebelião contra as normas, mesmo que os rebelados não tenham se tornado bestas de uma vez por todas, e, portanto, perdido a capacidade de julgar sua própria condição, é uma agonia perpétua de indecisão ligada a um Estado de incerteza.

Os homens e as mulheres são inteira e verdadeiramente livres, e assim a agenda da libertação está praticamente esgotada. Somos talvez mais "predispostos à crítica': mais assertivos e intransigentes em nossas críticas, que nossos ancestrais em sua vida cotidiana, mas nossa crítica é, por assim dizer, "desdentada' incapaz de afetar a agenda estabelecida para nossas escolhas na "política-vida' A liberdade sem precedentes que nossa sociedade oferece a seus membros chegou, como há tempo nos advertia Leo Strauss, e com ela também uma impotência sem precedentes.

A teoria crítica pretendia desarmar e neutralizar, e de preferência eliminar de uma vez, a tendência totalitária de uma sociedade que se supunha sobrecarregada de inclinações totalitárias intrínseca e permanentemente.

O que distingue a modernidade de todas as outras formas históricas do convívio humano:  a compulsiva e obsessiva, continua, irrefreável e sempre incompleta modernizaçâo; a opressiva e inerradicável, insaciável sede de destruição criativa.
Movemo-nos  e continuaremos a nos por causa da impossibilidade de atingir a satisfação: o horizonte da satisfação, a linha de chegada do esforço e o momento da auto-congratulação tranqüila movem-se rápido demais. A consumação está sempre no futuro, e os objetivos  perdem sua atração e potencial de satisfação no momento de sua realização, se não antes.

Se a modernidade original era pesada no alto, a modernidade de hoje é leve no alto, tendo se livrado de seus deveres "emancipatórios' exceto o dever de ceder a questão da emancipação às camadas média e inferior, às quais foi relegada a maior parte do peso da modernização contínua.

A sociedade moderna existe em sua atividade incessante de "individualização' assim como as atividades dos indivíduos consistem na reformulação e renegociação diárias da rede de entrelaçamentos chamada "sociedade'. Resumidamente, a "individualização" consiste em transformar a "identidade" humana de um "dado" em uma "tarefa" e encarregar os atores da responsabilidade de realizar essa tarefa e das conseqüências (assim como dos efeitos colaterais) de sua realização. Na terra da liberdade individual de escolher, a opção de escapar à individualização e de se recusar a participar do jogo da individualização está decididamente fora da jogada. O outro lado da individualização parece ser a corrosão e a lenta desintegração da cidadania.

Libertar as pessoas pode torná-las indiferentes. O indivíduo é o pior inimigo do cidadão, sugeriu ele. O "cidadão" é uma pessoa que tende a buscar seu próprio bem-estar através do bem-estar da cidade - enquanto o indivíduo tende a ser morno, cético ou prudente em relação à "causa comum' ao "bem comum' à "boa sociedade" ou à "sociedade justa' Qual é o sentido de "interesses comuns" senão permitir que cada indivíduo satisfaça seus próprios interesses? As únicas duas coisas úteis que se espera e se deseja do "poder público" são que ele observe os "direitos humanos' isto é, que permita que cada um siga seu próprio caminho, e que permita que todos o façam "em paz" - protegendo a segurança de seus corpos e posses, trancando criminosos reais ou potenciais nas prisões e mantendo as ruas livres de assaltantes, pervertidos, pedintes e todo tipo de estranhos constrangedores e maus. Não é mais verdade que o "público" tente colonizar o "privado" O que se dá é o contrário (política vida).

Foi só o sentido atribuído à emancipação sob condições passadas e não mais presentes que ficou obsoleto - não a tarefa da emancipação em si → Há um grande e crescente abismo entre a condição de indivíduos de jure e suas chances de se tornar indivíduos de facto  - isto é, de ganhar controle sobre seus destinos e tomar as decisões que em verdade desejam. O impulso modernizante, em qualquer de suas formas, significa a critica compulsiva da realidade. Se o velho objetivo da teoria crítica - a emancipação humana - tem qualquer significado hoje, ele é o de reconectar as duas faces do abismo que se abriu entre a realidade do indivíduo de jure e as perspectivas do indivíduo de facto.

O indivíduo de jure não pode se tornar indivíduo de fato sem antes tornar-se cidadão.


O objeto da ação dos filósofos não são apenas os próprios filósofos, seu pensamento, o "fazer interno" do filosofar, mas o mundo enquanto tal, e, por fim, a harmonia entre os dois. E tampouco há como evitar o fato duro de que - pelo menos no começo, enquanto a distância entre a verdade da filosofia e a realidade do mundo não for preenchida – o Estado seja tirânico. A tirania (Kojéve é inflexível quanto à possibilidade de essa forma de governo ser definida em termos moralmente neutros) ocorre quando uma fração dos cidadãos (pouco importa que sejam minoria ou maioria) impõe a todos os outros cidadãos suas idéias e ações, que são guiadas por uma autoridade que essa fração reconhece espontaneamente, mas que não conseguiu fazer que os outros reconheçam.