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domingo, 9 de agosto de 2015

O ÓDIO À POLÍCIA

Toda vez que abro alguma rede social me deparo com meia dúzia de "revolucionários" apoiando alguma causa que eles mal se deram o trabalho de analisar direito. Convenientemente esta causa quase sempre é a que todos os outros estão apoiando, porque na era da rede social, alienação vem a dar com pau.
Hoje, o que vi foi mais uma daquelas postagens generalizadas atribuindo corrupção à polícia como um todo, e tratando o criminoso como vítima da sociedade. Não me entenda errado: estudei criminologia com atenção suficiente para concluir que o nosso sistema penal é autofágico. Em outras palavras, o Estado se alimenta da merda que ele cria. Isto, todavia, não significa que a merda seja uma ilusão. Temos sim que investir na educação, ações afirmativas, sistema carcerário capaz de reinserção social, e numa cultura que não veja o criminoso como "o outro irrecuperável". No entanto, não podemos negar que, enquanto a coisa não melhora, já existe e vai continuar existindo homicídio, tráfico (de drogas, órgãos e até pessoas), estupro, roubo e por aí vai. Descobrir que o criminoso foi criado pelas circunstâncias não desfaz o mal que ele está fazendo aos indivíduos que o cercam.
Agora que cheguei onde eu queria chegaram, eis meu desabafo. Porque, saibam vocês ou não, o mal que é feito muitas vezes recai sobre os policiais. Quando isto acontece, ninguém se rebela: trata-se apenas de uma fatalidade envolvendo o policial, que estava fazendo o seu trabalho. De outro lado, contudo, se algo ocorre com um criminoso, os pseudo-politizados já começam a se debater. De repente a polícia (em abstrato, porque quase nunca as pessoas têm a sensibilidade de ao menos considerar que em todos os ramos temos competência e corrupção coexistindo) é um órgão alienado, que desrespeita os direitos humanos e que deveria ter agido com mais cautela. 
O que as pessoas falham em considerar é que o policial, que normalmente está lá cumprindo ordens, é um ser humano com medos, uma vida para preservar e família esperando em casa. Se algo acontecer a ele, não é só uma farda que está caindo por terra: É UMA PESSOA. E sim, as chances de algo acontecer aos policiais é bem grande, porque os ataques a estes profissionais (muito embora isto não seja noticiado devidamente) têm crescido drasticamente. Enquanto isso, a sociedade apedreja e solicita que as mãos dos policiais sejam ainda mais atadas que já estão.
Com este discurso não pretendo fazer vista grossa aos policiais que abusam da força e do poder, abrem fogo sem ter prova e se deixam corromper. Como eu já disse antes, existem bons e maus profissionais em todas as áreas.
Também não vou deixar passar em branco o fato de o criminoso, assim como o policial, ser ALGUÉM com direito a vida, família e novas chances.
Mas então o que fazer diante deste embate? APRENDER A CRITICAR E ATACAR O PROBLEMA CERTO. De nada adianta o povo se rebelar se não sabe ter foco e enxergar o que interessa!
A polícia segue ordens vindas de cima. Alguém com dinheiro e poder está sentado em sua confortável poltrona determinando que subordinados coloquem suas vidas em risco, bem como se sujeitem a receber represálias da sociedade maniqueísta (o policial é o mauzinho e o criminoso é o coitadinho, ou vice-versa). Este indivíduo que dá as ordens ao policial, por sua vez, atua dentro de um sistema que já é todo fodido, pois estruturado por pessoas que representam interesses fragmentados (vide a divisão do legislativo em bancadas, que se ocupam de ninharias e nunca atacam os problemas reais). Quem dá a ordem normalmente não é visto, atua por trás dos panos, e por isso não é repreendido pelo povo ou pela mídia. 
Sobra então para quem?  Para os policiais, que ganham mal, obedecem ordens, e são responsabilizados por um problema que é infinitamente mais profundo, e que nunca vai ser plenamente enxergado pelos cidadãos brasileiros: criaturas tapadas que só conseguem ver a ferida, mas nunca enxergam a causa dela. 

domingo, 19 de julho de 2015

TUDO AO MESMO TEMPO E NADA A DECLARAR

     Por quantas vezes a ideia de fazer algo lhe animou mais que a própria feitura da coisa? Quantos livros acumulamos na nossa lista de "vou ler" do skoob? E quantos capítulos lemos antes de colocar estes livros na lista de "abandonados"? 
     Somos - vou me incluir bem incluída nesta crítica - a geração das listas. Gostamos de acumular títulos, categorizar coisas (e pessoas) e ter um objetivo abstrato que permanecerá abstrato para sempre. Não nos aprofundamos em nada. Trocamos os livros por artigos, os artigos por textões, os textões (como este) por parágrafos de reflexão, e os parágrafos de reflexão por tweets. 
     No celular, jogamos as telas de um lado para outro, mas raramente lemos os seus conteúdos. As séries que assistimos são de curta duração, ou são séries longas com vários enfoques curtos em núcleos/personagens diferentes. Os filmes que mais gostamos são aqueles que se desenvolvem rapidamente (daí o sucesso dos remakes, que não precisam se demorar muito na introdução, uma vez que todo mundo já sabe o que aconteceu). 
     Até os youtubers têm compactado os seus vídeos, num esforço de adaptação para cybersobrevivência. São poucos os que ousam cruzar a marca dos cinco minutos, e menos ainda os que passam do 7º. A forma de se expressar tem que ser objetiva e as informações muitas vezes são cuspidas rapidamente, em especial quando o conteúdo do vídeo é informativo (AsapSCIENCE, CrashCourse etc.). 
     Mas o pior de tudo é que este problema também pode ser verificado nas relações humanas. Nos relacionamos por conveniência: nos aproximamos porque a pessoa está ali, e enquanto ela está ali. Ninguém precisa mover uma palha, pois acha que ter a pessoa no whatsapp vai fazer com que o contato surja sozinho, miraculosamente. Ademais, pra  que perder tempo com alguém quando temos o Tinder fervilhando com novos rostinhos encimando uma frase de efeito manjada? 
     Queremos tudo e não experienciamos nada. Tenho a impressão de que temos um milhão de coisas para serem lembradas, mas não recordamos de qualquer uma porque todas foram emocionalmente irrelevantes. Essa irrelevância emocional, por sua vez, decorre da nossa falta de comprometimento. Tá faltando paciência pra explorar, persistência pra suportar os lados desagradáveis das coisas/pessoas, e humildade pra entender que o universo não tem o dever de nos entregar tudo o que é perfeito (até porque não existe tal coisa no universo, caso você não tenha notado). 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

POLUIÇÃO

Era uma metrópole como qualquer outra. Seu céu há muito tinha sido escondido por uma camada grossa de fumaça cinzenta. Havia também os edifícios, com suas fachadas desgastadas e pichações cheias de ódio. Por entre os edifícios os carros fluíam lentamente e se amontoavam. As ruas eram tomadas pelo coro de buzinas, que se somava ao som dos estouros de escapamento e marteladas vindas das construções. Ladeando as ruas estavam as calçadas, sempre cheias de pedestres, guimbas de cigarro e embalagens plásticas. 
João estava voltando de sua primeira viajem. Nunca tinha abandonado a metrópole antes, de modo que, por estar habituado a tudo, nunca tinha questionado a maneira como as coisas funcionavam. Contudo, aquilo mudou assim que ele regressou à sua cidade. 
Tão logo desceu do taxi, a primeira coisa que viu foi uma chaminé industrial cuspindo nuvens e mais nuvens negras de fumaça. Contrariado, João continuou andando e percebeu que já se sentia cansado e ofegante. Seus olhos ardiam e não conseguiam enxergar através da neblina fedorenta que se espalhava por todo canto. Não tardaria a perceber que aquilo não era neblina, mas sim fumaça, desta vez brotando dos escapamentos dos carros. Não fosse isso suficiente, havia também a barulheira incessante, que logo perturbou o rapaz e fez com que ele apertasse o passo para chegar logo ao seu apartamento. 
Foi só ao sentar no sofá da sala que João viu que havia um papel amassado grudado ao seu sapato. Intrigado, ele estendeu a mão, pegou o papel, desamassou-o e leu a mensagem: "vá se danar".

É preciso parar com esse hábito de ver a poluição como um monstro de sete cabeças. Quando fazemos isso, simplesmente nos conformamos com o problema e aguardamos uma solução milagrosa (provavelmente em forma de tecnologia). 
Ocorre que não precisamos esperar pela tecnologia perfeita. Já é possível que nossa rotina seja positivamente ajustada. Boa parte destas mudanças vem da educação, que deve conscientizar as pessoas sobre os malefícios de jogar lixo nas ruas, contribuir para a poluição sonora e danificar o patrimônio público ou propriedades privadas. Há também uma resposta tecnológica: os carros elétricos, que sabidamente poluem menos que outros veículos. Por fim temos a necessidade de regulamentação da atividade industrial, que continua optando pela forma mais barata de produção, pois aparentemente o bolso do industrial é mais relevante que os pulmões de populações inteiras. 
Portanto, a mudança do status atual depende muito de iniciativa individual, e isso não é novidade. A novidade é que essa iniciativa é constantemente tratada como grande sacrifício. Em outras palavras, passamos a enxergar nossos atos nocivos como insubstituíveis e indispensáveis à sobrevivência, o que é um equívoco grande e que ainda nos prejudicará muito.

domingo, 3 de maio de 2015

ENCALHEI NO MEU IDIOMA - #Paragrafão

De acordo com a wikipédia, pensamentos são "reações representativas causadas por estímulos de reações químicas internas ou fatores ambientais externos". Ok, mas que meio devemos utilizar para transformar essas abstratas reações representativas em algo definido e compreensível? A linguagem (corporal, verbal, simbólica, escrita, e até a vozinha que fica narrando os acontecimentos dentro da nossa cabeça), claro! Mas será que a linguagem é realmente uma ferramenta efetiva? Quantas reações representativas foram ignoradas simplesmente porque não puderam ser traduzidas em palavras? Quantas vezes modelamos as nossas reações representativas para que elas coubessem numa explicação verbal? E quantas vezes essas reações representativas, já previamente modeladas ao serem cuspidas para o mundo exterior, foram remodeladas quando escutadas e (talvez equivocadamente) interpretadas pelo receptor da cuspidela?  E será que verbalizar precariamente estas reações representativas não é mentir para nós mesmos quanto à amplitude delas? Será que a linguagem não é uma ferramenta fadada a tornar as coisas simplistas? É como se estivéssemos destinados a permanecer enclausurados em nossas próprias cabeças! A nossa lógica de pensamentos está intimamente ligada/limitada pelo idioma que falamos. Tudo bem que, segundo o compêndio Ethnologue, existem 6.912 idiomas em todo o mundo (além da possibilidade de centenas de outros idiomas não catalogados) e que cada um deles tem milhares de palavras que, por vezes, sequer podem ser traduzidas para outros idiomas. Contudo, a maioria gritante das pessoas só sabe falar uma ou duas línguas. Por isso, quando for abrir a boca para comentar as esquisitices de outro povo, ou quando for se gabar de sua notável inteligência, lembre-se: você e eu somos só criaturinhas medíocres encalhadas no(s) próprio(s) idioma(s). 

domingo, 25 de janeiro de 2015

NÃO SOU OBRIGADO





Eu já escutei, algumas vezes, pessoas dizendo que a minha geração se envolve muito facilmente. Eu discordo.
Você pode dizer: "Ah, mas a geração nascida nos anos 80 passou a adolescência 'ficando'. Hoje todo mundo já larga namorando sério."
De fato, hoje as pessoas assumem namoro facilmente. O problema é que elas abrem mão com a mesma facilidade com que assumem.  Se na geração anterior havia uma delimitação clara entre 'ficar' e namorar, hoje as duas coisas se confundem em uma/nenhuma.
Já cansei de ver fulaninho trocar status de relacionamento depois de dar dois beijos na sicraninha. Então começam as dedicatórias no facebook, fotos no instagram e tweets apaixonados. O problema é que a minha geração quer um troféu pra mostrar na rede social, e não um ser humano de carne e osso: querem alguém que "agregue valor" ao seu ego. 
Como sabemos, contudo, não existem pessoas perfeitas. Assim, depois das apaixonadas primeiras semanas de namoro, começam a aparecer os defeitinhos. Uma pessoa realmente comprometida teria a coragem de lidar com os problemas e fortalecer o relacionamento. Hoje, porém, ao primeiro sinal de defeito do parceiro, o sujeito já começa fazer o download do Tinder no seu  smartphone. 
O raciocínio é o seguinte: eu posso contatar 1001 pessoas pelo facebook, twitter, tinder, whatsapp + eu tenho milhares de possibilidades, mas mesmo assim eu abri mão delas pra investir meu precioso tempo em você = faça o favor de não pisar na bola, pois eu não sou obrigado a lidar com as suas imperfeições, e não vou hesitar em seguir em frente num piscar de olhos caso você não continue sendo este príncipe/princesa utópico(a) sobre o qual escrevi no meu facebook, quando fui legendar a nossa foto.
Soma-se a isto a seguinte lógica: eu obviamente sou um poço de relevância, afinal TODOS os meus seguidores/amigos/contatos estão prestando plena atenção em tudo que eu escrevo, digo, canto, etc. Por isso, é muito importante que você não fira o meu ego do tamanho de um Zeppelin e não me obrigue a fazer papel de trouxa na frente de todos os meus súditos admiradores.
Em suma: nos perdemos entre as nossas possibilidades (aquelas que nunca vamos explorar, afinal estamos muito ocupados colecionando ainda mais possibilidades). Somos covardes, pois tememos "fazer papel de trouxa" a ponto de começar relacionamentos já imaginando como eles vão acabar. Vivemos pelas aparências, e não pelas experiências. Nos entregamos fisicamente a todos, mas não estabelecemos conexões emocionais com ninguém. Nunca dispomos de tantos meios para acabar com a solidão, mas ao mesmo tempo, nunca estivemos tão sozinhos. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

CHECK LIST

Abrir os olhos e lamentar.
Se debater até conseguir rastejar.
Vomitar ao contrário.
Sentir a fraqueza se espalhar pelos seus ossos.
Contar os segundos.
Não saber o porquê de estar contando os segundos.
Tentar arrancar fora a própria pele.
Se humilhar por migalhas de condescendência.
Escutar declarações enquanto te pisoteiam.
Fotografar tudo isto e expor com orgulho.
Trilhar novamente o mesmo dia e ter vontade de explodí-lo.
Esconder-se num universo ficcional barato.
Sentir-se dormente.
Descobrir que um dia sentirá saudades disso e que concluirá que não fez o suficiente.
Entrar em coma por algumas horas.

domingo, 23 de novembro de 2014

LEVE-ME DE VOLTA À INFÂNCIA

Quando pequenos, queremos coisas que independem da nossa vontade: brinquedos que somente nossos pais podem nos dar.
Quando maiores, queremos coisas que independem da nossa vontade: nos relacionar ou passar uma noite com pessoas (que nos parecem) atraentes.
Quando pequenos, estamos acostumados a escutar pessoas dizendo como somos belos, e prestarem toda atenção a qualquer coisa nova que fazemos.
Quando maiores, nos produzimos por desejarmos ter a beleza reconhecida, e falamos incessantemente sobre nós mesmos  a fim de atrair interesse e atenção de todos.
Quando pequenos, tudo o que nos cerca parece ser gigante. 
Quando crescidos, apreciamos construções grandes e imponentes.
Quando pequenos, espontaneamente gritamos, gargalhamos, corremos até suar, dançamos e pulamos de felicidade. Tudo é novo, colorido, brilhoso, interessante.
Quando adultos, bebemos e nos drogamos para obter tal efeito.
Tudo o que fazemos quando adultos é tentar desesperadamente reproduzir a experiência da infância. Isto me faz indagar: o que há de tão especial na infância? 
Para começar, naquela época da vida não eramos tão conscientes acerca de nós mesmos. Não havia temor quanto a críticas, pois sabíamos que ninguém liga. Não tínhamos noção de tempo, pois o único tempo que existia era o presente. Não nos preocupávamos tanto em projetar o futuro, pois estávamos ocupados tornando o presente produtivo. Fazíamos amigos com maior facilidade, escolhíamos nossos passatempos, não pautávamos as ações em modas e tendências. 
A infância é a única época da vida em que somos plenamente espontâneos. Depois disso, passamos a ser influenciados pelo meio, pelas pessoas, pelas tendências e pela vontade de agradar alguém que consideramos importantes.
Portanto, sempre que aquelas velhas perguntas "quem sou eu?" ou "qual a minha vocação?" vier lhe atormentar, olhe para trás e lembre-se de seu eu infantil. Pergunte-se: "o que eu teria feito se fosse uma criança?".