sexta-feira, 24 de julho de 2020

O QUE HARVARD DIZ/DISPONIBILIZA SOBRE A CLOROQUINA (CQ) E HIDROXICLOROQUINA (HCQ)

A pesquisa pelo posicionamento da Harvard Medical School foi bastante efetiva e rápida. Uma das primeiras páginas sugeridas pelo Google é o próprio sítio institucional, que você pode acessar clicando aqui. Caso você não consiga a língua inglesa, segue um resumo das principais informações disponibilizadas.

CLOROQUINA E HIDROXICLOROQUINA


Segundo a publicação, que à época de minha consulta havia sido atualizada dia 23/6 (meu aniversário!), estudos preliminares demonstraram que a hidroxicloroquina e a cloroquina matam o vírus COVID-19 na placa de laboratório. Segundo observado, os medicamentos dificultam a ligação do vírus à célula, impedindo que o vírus entre; no entanto, se o vírus ainda assim conseguir entrar na célula, as drogas o matam antes que ele possa se multiplicar.
Quanto à azitromicina, sabe-se que há alguma ação anti-inflamatória, mas não há grandes informações sobre sua ação contra o COVID-19. 
O júri ainda não divulgou se esses medicamentos, isoladamente ou em combinação, podem tratar a infecção viral por COVID-19. A postagem menciona os estudos que associam problemas cardíacos e ineficácia na prevenção à CQ e HCQ, porém ressalta que alguns desses estudos foram criticados ou realizados com irregularidades. 
Por fim, o texto termina com a seguinte recomendação:
A cloroquina ou a hidroxicloroquina com ou sem azitromicina não devem ser usadas para prevenir ou tratar a infecção por COVID-19, a menos que esteja sendo prescrita no hospital ou como parte de um ensaio clínico.Os ensaios clínicos em andamento e prestes a serem iniciados para avaliar a eficácia desses medicamentos estão sendo retomados.

OUTROS TRATAMENTOS/PREVENTIVOS


O site da Harvard Medical School não aborda apenas a cloroquina/hidroxicloroquina. Apesar de a mídia (em especial aqui no Brasil) e o governo estarem hiperfocados nestes medicamentos, outras opções estão sob análises em diferentes instituições (vide a postagem sobre Stanford):
  • Plasma Convalescente:  o plasma do sangue de pacientes recuperados possui anticorpos e é usado no tratamento contra COVID-19. Referido tratamento já é adotado em alguns hospitais brasileiros. No entanto, requer estímulo à doação de plasma.
  • Dexametasona: assim como outros corticosteróides, trata-se de droga com efeito anti-inflamatório potente. Assim como a CQ  e a HCQ, são facilmente disponíveis e baratos. Em ensaios clínicos recentes, a dexametasona diminuiu o risco de morte em pacientes críticos. Contudo, até 23/6 os resultados da pesquisa não passaram pela revisão cuidadosa dos resultados. Muitos médicos estão tratando pacientes muito doentes com corticosteróides desde o início da pandemia, em virtude dos casos de  respostas hiperimune (por vezes letal) que danifica os pulmões e outros órgãos.  Cabe, contudo, a realização de estudos para definir o melhor momento para a administração dessa droga. 
  • Remdesvir: desenvolvido para tratar várias outras doenças virais graves (como ebola, p. ex.), o medicamento funciona inibindo a capacidade do coronavírus de se reproduzir e fazer cópias de si mesmo. No laboratório, ele inibiu a capacidade dos coronavírus que causam a SARS e a MERS infectar células em uma placa de laboratório. A droga também foi eficaz no tratamento desses coronavírus em animais. Estudos em humanos estão em andamento. Um estudo, publicado no New England Journal of Medicine, comparou o remdesivir com um placebo em mais de 1.000 pessoas hospitalizadas com COVID-19. Constatou-se que os pacientes que receberam remdesivir se recuperaram mais rapidamente do que aqueles que receberam um placebo (11 dias para o remdesivir e 15 dias para o placebo). A eficácia em pacientes mais críticos, no entanto, foi bem menor. O tratamento, ao contrário da CQ e HCQ, é aprovado pelo FDA.
  • Vitaminas C e D: segundo a publicação,"não há evidências de que o uso de vitamina C ajude a prevenir a infecção pelo coronavírus". Ademais, "altas doses podem causar vários efeitos colaterais, incluindo náusea, cãibras e aumento do risco de pedras nos rins". Já "a vitamina D pode proteger contra o COVID-19 de duas maneiras. Primeiro, pode ajudar a aumentar a defesa natural de nossos corpos contra vírus e bactérias. Segundo, pode ajudar a prevenir uma resposta inflamatória exagerada".



sexta-feira, 17 de julho de 2020

O QUE A STANFORD UNIVERSITY DIZ/DISPONIBILIZA SOBRE A CLOROQUINA E HIDROXICLOROQUINA

Após realizar minha pesquisa na plataforma do MIT, em busca de artigos produzidos/disponibilizados pela instituição, segui em frente com a investigação. 

OBS: caso algum estudo recente tenha sido realizado pela instituição quando você estiver lendo este post, favor mencionar nos comentários para que eu possa fazer a errata.
STANFORD UNIVERSITY
Na minha busca pelo posicionamento da Stanford Med acerca da cloroquina (CQ) e da hidroxicoloroquina (HCQ), descobri que em abril a instituição optou por realizar testes clínicos com a droga Remdesvir, preterindo assim a CQ e a HCQ.  Em entrevista publicada na plataforma da universidade, Stanley Deresinski, chefe da divisão de doenças infecciosas, afirmou: 
Sabe-se há 50 anos que a hidroxicloroquina possui propriedades antivirais inespecíficas. Mas, por enquanto, o remdesivir é o nosso agente preferido. 
Aruna Subramanian, professor que atua na área de doenças infecciosas, acrescentou:
A cloroquina está sendo usada um pouco demais sem o estudo adequado. [...] Preferimos ser orientados por dados, tanto quanto possível.
O presidente do departamento de Medicina de Stanford, Robert Harrington, realça a importância dos dados, do rigor científico e de testes clínicos randomizados:
Não podemos depender de histórias anedóticas para praticar a melhor medicina clínica. Temos que esperar pela ciência.
Em maio, os pesquisadores da Stanford lideraram ensaio clínico de interferon-lambda para COVID-19, conforme noticiado no site da instituição. Por fim, mais recentemente (no início de julho), começaram as pesquisas por participantes nos testes clínicos com a droga Favipiravir, segundo reportado pela universidade.
Apesar do alerta quanto à importância de testes clínicos randomizados, a plataforma med.stanford disponibilizou o ensaio clínico não randomizado que é aludido (e criticado pela falta de rigor científico) no artigo disponibilizado pelo MIT. Referido ensaio foi realizado pelo  Méditerranée Infection University Hospital Institute, de Marseille com uma amostra de 36 pacientes. Sua conclusão foi que as drogas antimaláricas, somadas à azitromicina, estão associadas à redução da carga viral de COVID-19. Como já comentei sobre ele no post sobre o MIT, não vou me repetir, mas você pode acessar o inteiro teor da pesquisa aqui e aqui.

No próximo post da série, veremos o posicionamento de Harvard quanto a medicamentos que se propõem a tratar a COVID-19. Fiquem ligados, sejam analíticos, PESQUISEM ANTES DE ABRIR A BOCA e até mais!!!

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O QUE O MIT DIZ/DISPONIBILIZA SOBRE A CLOROQUINA E HIDROXICLOROQUINA

Encontramo-nos em meio a uma disputa acirrada entre a esquerda e a direita, uma pandemia global de COVID-19 e uma crise econômica que não deve dar trégua tão cedo. Para piorar, 'informações' contradizentes surgem de todos os cantos. Como consequência, a confusão generalizada se instala, dando margem à politização dos tópicos mais variados (inclusive científicos!). Contudo, felizmente contamos uma ferramenta fantástica chamada internet, que nos possibilita a realização de pesquisas e acesso ao acervo de instituições consolidadas. Assim resolvi conduzir minha própria pesquisa sobre cloroquina (CQ) e a hidroxicloroquina (HCQ), considerando as descobertas de universidades com reconhecidos programas de ciências naturais. Segue abaixo meu primeiro achado: um artigo disponibilizado pela MIT, considerada a melhor universidade do mundo. 
OBS: caso algum estudo mais recente tenha sido realizado pela instituição quando você estiver lendo este post, favor mencionar nos comentários para que eu possa fazer a errata.
MIT - Massachusetts Institute of Technology
O MIT disponibilizou esse artigo (também acessível aqui) sobre o assunto. 
RESUMO ► a publicação contém alertas quanto à toxicidade dos medicamentos (potencialmente fatal em tratamentos pediátricos) e problemas cardíacos. Afirma que a CQ pode causar convulsões e que o envenenamento pelo uso de ambas as substâncias pode ser tratado pelo uso intravenoso de altas doses de Diazepam e outros métodos . Conclui, assim:
A evidência científica atual não suporta tratamento ou uso profilático desses agentes para a doença de COVID-19. As autoridades reconhecem que CQ e HCQ podem oferecer pouco benefício clínico e apenas adicionar riscos, exigindo investigação adicional antes da distribuição pública mais ampla.
OUTRAS INFORMAÇÕES ► O artigo menciona dois casos: duas pessoas que foram hospitalizadas na Nigéria com overdose de HCQ; e um casal do Arizona que ingeriu fosfato de cloroquina preventivamente e acabou parando na emergência (o homem veio a falecer).
A seguir, é mencionada a falta de rigor em alguns testes. Como exemplo o artigo alude a um estudo francês no qual foram administradas doses diárias de 600mg de HCQ aos  pacientes. Dependendo da condição clínica, a azitromicina foi adicionada ao protocolo de tratamento. Durante o estudo, a carga viral dos pacientes era verificada e os autores afirmaram que "o tratamento com hidroxicloroquina estava significativamente associado à redução ou desaparecimento da carga viral em pacientes com COVID-19 e seu efeito foi potencializado ou 'reforçado' quando a azitromicina foi adicionada ao regime de tratamento". Os problemas apresentados pelo estudo são: amostra pequena (apenas 36 pacientes), limitado acompanhamento a longo prazo, 6 pacientes abandonaram o estudo, houve exclusão dos pacientes mais doentes, o uso da azitromicina não foi uniforme, houve falta de estudo randomizado ou grupo de controle verdadeiro. 
Ainda, segundo o artigo publicado pelo MIT, "o prolongamento do intervalo QT causado por esses medicamentos antimaláricos também pode ser exacerbado pela coadministração de azitromicina, particularmente em pacientes doentes com doença cardiovascular preexistente ou em pacientes com desequilíbrios eletrolíticos".
Foram citados os posicionamentos do FDA (no sentido de se ter cautela para não criar falsa e esperança e assumir o risco de causar mais dano do que vantagem) e da OMS (que ressaltou a importância de testes clínicos eticamente aprovados).
Por fim, em relação aos pronunciamentos do presidente Trump, o artigo concluiu: 
Acreditamos firmemente que outras proclamações do Poder Executivo que não sejam compatíveis com evidências médicas devem ser evitadas. Porque, se não houver benefício para uma terapia, só poderá haver riscos. 
No próximo post da série, veremos o posicionamento de Stanford. Fiquem ligados, sejam analíticos, PESQUISEM ANTES DE ABRIR A BOCA e até mais!!!

domingo, 22 de dezembro de 2019

SPOILING: resumo 1ª Temporada de Glow Up

Glow Up é um Reality Show britânico competitivo. Resulta de uma parceria entre a Netflix e a BBC e funciona da seguinte maneira:
Cada episódio explora um contexto diferente (aplicação de próteses, editorial, produção de conteúdo para internet, etc).  Os episódios (8 no total), que têm duração aproximada de 45 minutos, contam com três provas. A primeira  dá uma vantagem/prêmio ao vencedor e coloca duas pessoas para a eliminação; a segunda dá a chance dos participantes "emparedados" se safarem e serem substituídos por outros (é a prova que realmente importa, sendo normalmente a mais longa); e a terceira é disputada pelos dois piores artistas do dia (chamada de Face Off), que devem performar uma tarefa de forma rápida e técnica em um par de gêmeas idênticas (enquanto os jurados fazem comentários em ASMR).  Quem perder é eliminado.
O corpo de jurados compõe-se de dois profissionais fixos (Val Garland e Dominic Skinner) e um convidado, estando este relacionado ao tema do episódio. Dentre eles, quem mais se destaca é Val, com suas alterações de voz inesperadas e uma vontade insaciável de fazer acontecer o seu bordão ("ding dong"). Além disso, há também uma anfitriã, que conduz os participantes pela competição e conforta aqueles que resolvem dar piti. 
De forma geral, o ritmo dos episódios é bem rápido, sem muita troca de shades e jurados desnecessariamente maldosos - ainda bem, já que esse modelo já está ficando bem saturado.  

EPISÓDIOS

EDITORIAL DE BELEZA: Foca em maquiagens para editoriais. Os participantes devem criar um look que expresse rebeldia e fotografe bem. A melhor participante têm sua maquiagem exposta em uma das páginas da Marie Claire. A segunda prova é bem genérica, embora tenha rendido maquiagens bem bonitas, e gira em torno do conceito de beleza. Um dos poucos momentos shade de jurados acontece nesta prova, em que Val chama o trabalho da eliminada de entediante na cara dela. O tema da prova final é 'lábios negros'. Os participantes tiveram poucos minutos para aplicar batom preto da forma mais perfeita possível nos lábios das modelos gêmeas. Normalmente a prova final é precedida de um preview, onde um dos jurados explica como completaria aquele desafio. 
PRÓTESES DE FILMES: Trabalha com a aplicação de próteses. Neste episódio os participantes visitam os estúdios de Harry Potter e são julgados por um maquiador que trabalhou tanto na trilogia principal, quanto em Animais Fantásticos. A primeira tarefa é  realizada em grupos e gira em torno da criação de personagens descritos num pequeno roteiro de instruções. O grupo vencedor, liderado por um artista com experiência em próteses, tem o privilégio de escolher primeiro a prótese para a segunda prova (um prêmio bem bosta, pra falar a verdade). A segunda prova consiste na criação de um personagem para um mundo mágico pré-existente. O artista que se destacou na primeira  tarefa acaba caindo na berlinda e sendo eliminado em seguida, após ter 15 minutos para criar uma maquiagem espontânea (cujo critério de avaliação pareceu bastante arbitrário). 
REDES SOCIAIS: a youtuber Nikki (do canal Nikki Tutorials) estrela este episódio, que começa com uma prova envolvendo a criação de um challenge de maquiagem a ser filmado e editado. A dupla vencedora ganha a oportunidade de gravar com Nikki. A segunda prova consiste na criação de um look meio-a-meio no próprio rosto, resultando em visuais bastante criativos e artísticos. Já na prova final, requer-se a aplicação da técnica cut and crease, utilizada para fazer com que os olhos das modelos pareçam maiores. Os dois artistas fizeram um trabalho de bosta, e a eliminação ficou a critério da precisão (o look menos bagunçado sobreviveu).
TAPETE VERMELHO:  Neste episódio os participantes têm 45 minutos para fazer um look numa "celebridade" (ênfase nas aspas) que está em vias de caminhar no tapete vermelho de um evento. O look que fotografar melhor diante dos paparazzi ganha a vantagem de escolher a modelo para a segunda prova (outra recompensa bem mais ou menos). Uma das participantes acaba falando demais e não conseguindo terminar o trabalho; outra participante fez sua 'celebridade' envelhecer uma década. No entanto, as duas se safam na prova seguinte, que demanda uma maquiagem em preto e branco. Desta vez se ferraram os competidores que resolveram se deixar levar pela criatividade (por isso rola um ceticismo quando eles chamam o maquiador de make up artist e ficam falando sobre a importância da espontaneidade no artista).
TEATRO NO WEST END:  Desta vez o desafio gira em torno da maquiagem Drag. Por isso, o ep conta com a participação de Kim Chi (8ª temporada de Rupaul's Drag Race). A primeira prova requer que os competidores repliquem a maquiagem de uma peça teatral  (Kick and Boots) com personagens Cross Dressers. Nenhuma maquiagem foi aproveitada para o espetáculo. O competidor menos mal ganhou o direito de pedir dicas para a Kim Chi na tarefa seguinte. A segunda prova tem a temática de gênero e, pela primeira vez, não houve troca de participante na cadeira da eliminação (as mesmas pessoas foram mal nas duas competições). A terceira prova requer aplicação de cílios postiços e determina mais uma eliminação. 
LONDON FASHION WEEK: O episódio começa com os 5 competidores sendo levados aos bastidores da semana de moda de Londres, onde devem maquiar 12 modelos em um intervalo curto de tempo, trabalhar em equipe e saber replicar a demonstração da "maquiadora chave", que criou um look para complementar a coleção de roupas.  Todos se saíram bem, mas um dos maquiadores teve problema em administrar o tempo e foi (pela primeira vez) o único 'emparedado'. Já na segunda prova, são os participantes que se tornam maquiadores chave: devem seguir as instruções dos fashionistas e entregar uma maquiagem que passe o espírito solicitado. A maquiagem mais sem graça e amadora é a segunda a cair no paredão, terminando de formá-lo. A terceira prova foi uma das mais interessantes e mais disputadas. As modelos gêmeas aparecem com um olho maquiado, cabendo aos emparedados replicar aquele olho. 
MAQUIAGEM ATRAVÉS DAS DÉCADAS: Neste episódio não há jurado convidado, mas cada participante tem como assistente um dos eliminados. Na primeira prova, é necessário maquiar um casal de modelos observando o estilo de uma década (60, 70, 80 ou 90). O vencedor da primeira tarefa passa direto para a final, mas faz a segunda prova normalmente, já que no último episódio é feita uma análise do "conjunto da obra". A competição seguinte envolve a criação de um look inspirado na música favorita do participante.  As performances foram bem equilibradas. Ademais, nesta prova fica bem claro que o veredito da Val tem mais peso. Por fim, o desafio final gira em torno de recriar sobrancelhas arqueadas estilo anos 30. 
FINALE: O primeiro desafio da final dá a oportunidade dos maquiadores apareceram na revista Hunger, com o look executado no rosto da modelo Laomie Anderson e fotografado por Rankin. Em termos de competição, esta prova não fez muito além de engordar o portfólio dos competidores. A segunda prova exigia a criação de um conceito que expressasse o futuro de cada maquiador. O pior dos três foi eliminado tentando executar uma técnica pela primeira vez. O desafio final é um face off entre os dois competidores restantes, que devem criar uma make completa em 45 minutos. O vencedor não causa surpresa alguma, já que seu favoritismo nos olhos dos jurados já vinha aparecendo ao longo dos episódios.
CONCLUINDO
O reality é leve e fácil de assistir, e sua renovação para mais uma temporada não surpreende.  A variedade de desafios e o ritmo dos episódios prende a atenção do espectador. Não há shade entre os participantes ou vindo dos jurados, muito pelo contrário: em alguns momentos os maquiadores se ajudam e os jurados estão torcendo por eles. A única crítica que eu tenho é quanto ao valor das provas. Isto porque alguém pode ser excelente na primeira tarefa e acabar indo para eliminação mesmo assim. Além disso, os participantes que acabam entre os piores se acostumam a lidar com a pressão do face off final, de modo que vários bons competidores deixaram o reality de maneira prematura.  

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

OS MILHÕES DO FLAMENGO

Apenas 8 meses após o incêndio no CT do Flamengo, que deixou 10 mortos em virtude de uma clara falta de investimento na infraestrutura que abrigava jovens jogadores, a imprensa celebra o time de contratações milionárias. Uma tragédia dessas não só não é reprimida, como é premiada. Por essas e outras que estou perdendo o gosto por assistir futebol. 

terça-feira, 28 de maio de 2019

LISTICLE (LISTAS)

(http://listiclegenerator.tumblr.com/)

Listicle é uma junção das palavras "list" e "article". Assim, poderia ser livremente trazido para Listigo (lista + artigo) e, como o nome sugere, é uma forma de escrita curta que usa uma lista como sua estrutura temática, mas é suficientemente aperfeiçoada a ponto de ser publicada como um artigo. Dois sites famosos que comumente fazem Listicles são Buzzfeed e Listverse. 
É comum que este tipo de escrita também seja visto não só em sites de artigos, como também em roteiros para vídeos - sobretudo na plataforma Youtube.
O listicle tipicamente traz em si um número cardeal em seu título, e é comum - embora não obrigatório - que implique julgamento qualitativo que influencia na ordem dos tópicos.  Não raramente, em portais mais informais, os listicles vêm acompanhados de GIFs ou imagens estáticas. 
Algumas dicas para escrever um bom artigo nesta modalidade são: adotar abordagens inesperadas sobre qualquer tópico que seja; mapear cada tópico do artigo, para então finalmente preencher os pontos com a substância do tema; os títulos dos tópicos devem ser claros e específicos, porém deixar margem para curiosidade; os GIFs devem reforçar o tema de cada tópico; é importante escrever uma conclusão, ao invés de simplesmente terminar o texto abruptamente. 
Dentre os temas possíveis estão: opiniões pessoais, conselhos, notícias e pesquisas. Já as estruturas possíveis são principalmente duas: poucos tópicos com argumentos bem desenvolvidos; muitos tópicos com argumentos breves e superficiais. 
O site Bustle adota o seguinte formato: 
  • introdução de 220 a 300 palavras; 
  • 7 ou mais tópicos; 
  • 1 ou 2 parágrafos embaixo de cada GIF;
  • se a lista tiver mais de 15 tópicos, a introdução terá o mesmo tamanho, mas cada ponto deve ter somente entre 1 e 3 linhas sob cada GIF;
  • o resultado total/final deve ter de 700 a 1300 palavras.
Entre os listicles mais antigos e conhecidos estão os Dez Mandamentos e as 95 teses de Martinho Lutero.
Psicologicamente, este tipo de artigo atrai por prometer condensar qualquer assunto em um número de fatos, além de deixar o leitor consciente de quanto falta para o fim do texto. Além disso, cada tópico é completo em si mesmo, de modo que a leitura pode ser abandonada a qualquer momento sem um sentimento de culpa. Finalmente, as listas dão a ideia de ordem, e tornam a tarefa de "costurar o texto" mais fácil para quem o escreve.
Nossa geração recebe, a todo tempo, uma enxurrada de informações, e tem disponível uma quantidade ainda maior de artigos, livros, documentários etc. Estamos consumindo informação num rítmo maior que costumávamos há alguns anos, embora nossa memória de curto prazo continue limitada. 
Infelizmente, nem todo esse material disponível é de qualidade, o que nos leva a ter a necessidade de filtrá-lo. Os listicles facilitam  que classifiquemos um assunto como "vale a pena o tempo" ou "deixa pra lá". Isto porque listicle viabiliza a  "leitura inspecional" (tradução livre), termo cunhado pelo autor Mortimer Adler. É um tipo de leitura superficial que nos permite identificar o modelo da escrita e avaliar se vale a pena realizar a leitura aprofundada. Isto faz com que aproveitemos melhor nosso tempo, bem como nos lembra que não há mal em abandonar uma leitura quando esta é desinteressante, simplesmente porque já investimos muito tempo nela.
Manter contato com leituras interessantes é vital, dadas as evidências de que a leitura  estimula mudanças cerebrais que nos tornam mais inteligentes, não só pela informação absorvida, mas também pela otimização da performance mental. Além disso, listicles são boas maneiras de nos prover informações superficiais sobre tópicos variados.
Assim, a despeito das críticas, as listas - bem escritas - têm suas vantagens. Elas servem como um primeiro passo para escolher em quais os assuntos vamos nos aprofundar, dispensando tempo para leituras mais complexas e fluidas. 


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FONTES

Wikipédia.
Bustle.
The Guardian.
Forbes.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

LIBERDADE DE EXPRESSÃO E O CASO DE JULIO COCIELO

Liberdade de expressão VS Popularidade de Opinião
Durante a Copa do Mundo o youtuber Julio Cocielo postou o seguinte tweet
Mbappé conseguiria fazer uns arrastão top na praia hein
O tweet repercutiu negativamente pela significação racista, levando os internautas a encontrar mais postagens preconceituosas feitas por Cocielo. Outras pessoas famosas, como Cauê Moura e Bruno Gagliasso, também tiveram postagens desenterradas e julgadas pela internet. 
A reação da internet, por sua vez, fez com que surgisse a velha discussão do "politicamente correto". Durante essas discussões, sempre vejo comediantes e demais pessoas da indústria do entretenimento se defendendo sob o argumento da liberdade de expressão. No entanto, acho que este argumento falha em considerar três coisas:
  1. Você tem liberdade para dizer o que quer, mas a pessoa que consome seu conteúdo ou lê suas postagens também tem.
  2. Liberdade de expressão significa não ser impedido de se expressar; não significa imunidade à crítica.
  3. Liberdade de expressão é diferente de popularidade de opinião
Assim, por exemplo, no caso de Julio Cocielo ele não foi punido porque se expressou livremente, mas sim porque ele escolheu dizer algo que o tornou impopular. As marcas que rescindiram contrato com o youtuber o fizeram não porque desejam que ele não mais expresse suas ideias, mas sim porque marcas querem se associar a pessoas populares vistas positivamente pelo público. Não se trata de censura, trata-se do mercado dizendo ao Cocielo a mesma coisa que ele diz para todos: se você não oferece algo que queremos, não vamos lhe dar mais dinheiro. 
Idade e Responsabilidade
Outro argumento normalmente levantado é a questão da idade. Um exemplo disso é o youtuber americano RiceGum, que aos 18 anos de idade, durante uma live na Twitch, perguntou a uma moça se foi bom ser estuprada ("But did it feel good tho?"). Vários comentaristas alegaram que o americano era jovem demais para entender a gravidade do que disse, e que pessoas jovens fazem coisas idiotas. Ainda assim, não se pode olvidar que RiceGum era velho o suficiente para ser preso pelo crime de estupro, o que implica dizer que a sociedade espera que ele, aos 18 anos, seja plenamente capaz de entender a gravidade de conduta. E se ele é capaz de entender o quão perturbador é alguém estuprado, presume-se que ele saiba que fazer piada com uma vítima na frente de milhares de crianças influenciáveis é algo extremamente insensível e errado.
No Brasil, várias pessoas também se referiram a Cocielo como menino (vide o Vídeo da Ilha de Barbados sobre o tema), a despeito de ser um homem de 25 anos (e não, eu não acho que o caso de Cocielo e RiceGum são equivalentes, só os equiparei em razão do argumento de defesa). Ser adulto tem vantagens, como ser livre para contratar com grandes empresas e se tornar independente; mas também tem ônus, como se responsabilizar por aquilo que é dito a milhões de pessoas. 
Outra coisa que não exime ninguém de responsabilidade é a questão dos haters. Sim, tem gente que já odiava o Cocielo, o RiceGum, o Cauê Moura e etc. Essas pessoas só estavam esperando uma oportunidade para racionalizar um ódio até então imotivado. Contudo, o fato de existirem haters prontos para botar lenha na fogueira não significa que a atitude criticada deixa de ser errado e que toda e qualquer crítica é somente motivada por implicância.
Atitudes Isoladas
Sou da opinião de que existem diferenças entre atitudes isoladas e uma existência inteira. Se alguém faz algo de errado uma vez, a atitude da pessoa deve ser condenada, a pessoa deve sofrer consequencias proporcionais ao erro e buscar crescer. No entanto, se julgamos a existência inteira de pessoa, desconsiderando as coisas boas que ela fez. Isso é desproporcional e, portanto, injusto. Alguém que comete os mesmos erros sistematicamente, pautando toda a sua vida em ideais preconceituosos, é diferente de alguém que fez colocações insensíveis e preconceituosas em situações isoladas: jogar esses dois tipos de pessoa no mesmo saco não me parece razoável. Até porque, dizer que alguém é irremediavelmente racista com base em algumas atitudes, é dizer que não há nada que aquela pessoa possa fazer para se redimir. Isto significa dizer que não há potencial para melhora. Se não há potencial para melhora e evolução, não há razão de ser para crítica, afinal toda crítica genuína tem como objetivo uma mudança em prol de melhora. 
Desenterrar Postagens Antigas
Minha opinião sobre desenterrar postagens antigas é bem simples: eu discordo. Se até mesmo o Código Penal prevê um prazo prescricional que torna impossível punir certos crimes após o decurso de alguns anos, por que a internet se acha no direito de fazer julgamento retroativo e esperar que a versão passada das pessoas seja tão evoluída quanto a versão presente?
Você Não Está Entre Amigos
O último prisma que quero abordar é o fato de muitas pessoas alegarem, ao defender suas piadas insensíveis, que todo mundo diz coisas de mal gosto entre amigos. Sendo assim, ninguém teria moral para criticar o coleguinha, certo? Errado. Você não está (só) entre amigos na internet: está exposto ao mundo inteiro, especialmente se você é um digital influencer ou uma pessoa pública em geral. Quando você está falando com seus amigos pessoalmente, eles entendem a sua entonação, sabem da sua história, do seu senso de humor: a mensagem distorcida por trás da piada de mal gosto imediatamente perde força. Contudo, na internet você está falando com pessoas de todas as ideologias e capacidades de compreensão, então melhor adaptar seu discurso se não quiser ser o próximo a ter que apagar milhares de tweets antigos.