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domingo, 3 de maio de 2015

ENCALHEI NO MEU IDIOMA - #Paragrafão

De acordo com a wikipédia, pensamentos são "reações representativas causadas por estímulos de reações químicas internas ou fatores ambientais externos". Ok, mas que meio devemos utilizar para transformar essas abstratas reações representativas em algo definido e compreensível? A linguagem (corporal, verbal, simbólica, escrita, e até a vozinha que fica narrando os acontecimentos dentro da nossa cabeça), claro! Mas será que a linguagem é realmente uma ferramenta efetiva? Quantas reações representativas foram ignoradas simplesmente porque não puderam ser traduzidas em palavras? Quantas vezes modelamos as nossas reações representativas para que elas coubessem numa explicação verbal? E quantas vezes essas reações representativas, já previamente modeladas ao serem cuspidas para o mundo exterior, foram remodeladas quando escutadas e (talvez equivocadamente) interpretadas pelo receptor da cuspidela?  E será que verbalizar precariamente estas reações representativas não é mentir para nós mesmos quanto à amplitude delas? Será que a linguagem não é uma ferramenta fadada a tornar as coisas simplistas? É como se estivéssemos destinados a permanecer enclausurados em nossas próprias cabeças! A nossa lógica de pensamentos está intimamente ligada/limitada pelo idioma que falamos. Tudo bem que, segundo o compêndio Ethnologue, existem 6.912 idiomas em todo o mundo (além da possibilidade de centenas de outros idiomas não catalogados) e que cada um deles tem milhares de palavras que, por vezes, sequer podem ser traduzidas para outros idiomas. Contudo, a maioria gritante das pessoas só sabe falar uma ou duas línguas. Por isso, quando for abrir a boca para comentar as esquisitices de outro povo, ou quando for se gabar de sua notável inteligência, lembre-se: você e eu somos só criaturinhas medíocres encalhadas no(s) próprio(s) idioma(s). 

domingo, 25 de janeiro de 2015

NÃO SOU OBRIGADO





Eu já escutei, algumas vezes, pessoas dizendo que a minha geração se envolve muito facilmente. Eu discordo.
Você pode dizer: "Ah, mas a geração nascida nos anos 80 passou a adolescência 'ficando'. Hoje todo mundo já larga namorando sério."
De fato, hoje as pessoas assumem namoro facilmente. O problema é que elas abrem mão com a mesma facilidade com que assumem.  Se na geração anterior havia uma delimitação clara entre 'ficar' e namorar, hoje as duas coisas se confundem em uma/nenhuma.
Já cansei de ver fulaninho trocar status de relacionamento depois de dar dois beijos na sicraninha. Então começam as dedicatórias no facebook, fotos no instagram e tweets apaixonados. O problema é que a minha geração quer um troféu pra mostrar na rede social, e não um ser humano de carne e osso: querem alguém que "agregue valor" ao seu ego. 
Como sabemos, contudo, não existem pessoas perfeitas. Assim, depois das apaixonadas primeiras semanas de namoro, começam a aparecer os defeitinhos. Uma pessoa realmente comprometida teria a coragem de lidar com os problemas e fortalecer o relacionamento. Hoje, porém, ao primeiro sinal de defeito do parceiro, o sujeito já começa fazer o download do Tinder no seu  smartphone. 
O raciocínio é o seguinte: eu posso contatar 1001 pessoas pelo facebook, twitter, tinder, whatsapp + eu tenho milhares de possibilidades, mas mesmo assim eu abri mão delas pra investir meu precioso tempo em você = faça o favor de não pisar na bola, pois eu não sou obrigado a lidar com as suas imperfeições, e não vou hesitar em seguir em frente num piscar de olhos caso você não continue sendo este príncipe/princesa utópico(a) sobre o qual escrevi no meu facebook, quando fui legendar a nossa foto.
Soma-se a isto a seguinte lógica: eu obviamente sou um poço de relevância, afinal TODOS os meus seguidores/amigos/contatos estão prestando plena atenção em tudo que eu escrevo, digo, canto, etc. Por isso, é muito importante que você não fira o meu ego do tamanho de um Zeppelin e não me obrigue a fazer papel de trouxa na frente de todos os meus súditos admiradores.
Em suma: nos perdemos entre as nossas possibilidades (aquelas que nunca vamos explorar, afinal estamos muito ocupados colecionando ainda mais possibilidades). Somos covardes, pois tememos "fazer papel de trouxa" a ponto de começar relacionamentos já imaginando como eles vão acabar. Vivemos pelas aparências, e não pelas experiências. Nos entregamos fisicamente a todos, mas não estabelecemos conexões emocionais com ninguém. Nunca dispomos de tantos meios para acabar com a solidão, mas ao mesmo tempo, nunca estivemos tão sozinhos. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

UM MONTE DE COISAS MISTURADAS



(por Philip Jackson)


Tornar-se confiante é bom, mas seria interessante se as pessoas não aliassem esta confiança à inflexibilidade e excesso de orgulho. Me parece que quanto mais "gordo" o ego, mais facilmente as pessoas se sentem afrontadas e, por conseqüência, erguem suas vozes e entram em conflito. 

Ao receber a notícia de que Jair Bolsonaro havia aprontado mais uma, me recusei a seguir em frente e investigar. A questão é: desde as primeiras demonstrações de ignorância que ele deu, não me sinto mais inclinada a lhe dar qualquer tipo de atenção. Eu o faria, se isso fosse mudar alguma coisa. Contudo, pessoas bitoladas normalmente o são porque se fecham para as opiniões alheias, e se recusam a sair da sua bolha de valores invariáveis e arcaicos. Pra que perder o seu tempo? Pra que dar ibope para um político que só quer impactar com o objetivo de atrair voto de uma parcela conservadora da sociedade?

Navegando pelas redes sociais, normalmente esbarro com postagens que fazem surgir aquela dúvida: será que a profundidade deste sujeito vai além da minha capacidade de compreensão, ou ele simplesmente está arrotando nonsenses pra parecer intelectual?

Outro clássico dos sites de relacionamento: pessoas levantando bandeira com base em opiniões formadas apressadamente, só para causar algum impacto e dar a falsa impressão de que têm "personalidade forte".

O mais triste de tudo é que não sei até que ponto eu tenho conseguido evitar o cometimento destas gafes.

Vou contratar a Xuxa pra catar as uvas passas do meu arroz à grega.

Não entre no Google Trends se você teme esbarrar em algum spoiler.

Há uma proliferação de lagartixas gordas se esgueirando pelas paredes e batucando contra as portas de madeira. O verão chegou.